Joaquim Bernardo
Miguel Areosa Feio
Vogal Executivo da Comissão Diretiva da Autoridade de Gestão do PESSOAS 2030;
Secretário Técnico da Unidade de Monitorização, Avaliação e Comunicação Estratégica da Autoridade de Gestão do PESSOAS 2030
In Revista TER 56
A questão de partida: como qualificar os profissionais d(n)o futuro
Está na ordem do dia que o mundo do trabalho está em cada vez maior transformação e, consequentemente, as profissões estão em rápida mudança, com as competências necessárias para o seu exercício a carecerem de um constante desenvolvimento, de uma verdadeira capacidade de aprendizagem ao longo da vida.
Na maior parte das vezes, quando ouvimos falar das “profissões do futuro”, são destacadas as profissões emergentes – por exemplo, especialistas em inteligência artificial, técnicos de energias renováveis, analistas de dados, programadores, gestores de sustentabilidade, profissionais da saúde digital ou operadores de novas tecnologias industriais e da robótica, entre um sem número de outras atividades impossíveis de prever. Para além disto, são também enfatizadas as profissões que tendem a desparecer ou a sofrerem uma grande redução na oferta de emprego, fruto, designadamente, da evolução tecnológica. O que é certo é que o futuro se faz, sobretudo, de mudanças em profissões que já existem – e continuarão a existir – mas em que o perfil de competências exigido para o seu exercício adequado evolui a um ritmo cada vez mais alucinante, devido não só à (r)evolução tecnológica, como à cultural, ambiental, social e política.
Neste contexto, as abordagens que procuram antecipar o futuro das profissões (e.g., a nível nacional, o Sistema de Antecipação de Necessidades de Qualificação – SANQ, a nível europeu os “Cedefop Skills forecast” (publicados para cada país) (Cedefop, 2025) ou a nível mais global, o “Future of Jobs Report”, (World Economic Forum, 2025) têm óbvia utilidade, porque ajudam a identificar tendências e necessidades do mercado de trabalho. Contudo, serão suficientes? Ou será que o principal desafio das próximas décadas não será sobretudo o de preparar as pessoas para uma determinada profissão, mas capacitá-los para viver, aprender e trabalhar num mundo em transformação contínua e, nesse contexto, prepará-las para a possibilidade de terem várias profissões ao longo da vida – ou, pelo menos, para uma contínua e cada vez mais acelerada mudança nas competências requeridas para o exercício de uma qualquer atividade profissional?
Se a resposta mais interessante for a que o sistema de educação e formação conseguir dar a esta segunda questão, então devemos concentrar menos os nossos esforços sobre que profissão terão as pessoas no futuro e mais sobre que competências lhes permitirão adaptar-se a profissões, tecnologias e contextos que ainda não conhecemos. A OCDE formula esta preocupação ao perguntar como deveremos preparar as pessoas para empregos que ainda não foram criados, para tecnologias que ainda não foram inventadas e para desafios sociais que não conseguimos antecipar plenamente. A resposta não está numa adaptação pontual a um “novo mundo”, porque esse mundo volta rapidamente a mudar. Está, antes, na construção de uma verdadeira capacidade de adaptação, de aprendizagem contínua, de pensamento crítico, responsabilidade, cooperação e autonomia (OCDE, 2019).
É neste contexto que as ofertas de qualificação financiadas pelo PESSOAS 2030, enquanto modalidades inseridas no nosso sistema nacional de qualificações, assumem um papel estratégico. Pela sua ligação ao mercado de trabalho, para o que é muito importante a formação em contexto real de trabalho e pela dupla certificação, escolar e profissional, que oferecem, constituem uma resposta chave às necessidades, nem sempre coincidentes, das pessoas e do tecido económico das regiões.
Aquilo que procuraremos frisar é, precisamente, o seu potencial para combinar competências técnicas, com competências pessoais e sociais transversais, permitindo que as pessoas desenvolvam não só as competências específicas associadas a uma determinada profissão ou perfil profissional, mas também aprendam a aprender, a colaborar, a resolver problemas e a reinventar-se, preparando-as para um mundo cada vez mais imprevisível.
O PESSOAS 2030, Programa Temático Demografia, Qualificações e Inclusão, enquadra-se nesta visão, porque se alinha com os objetivos comunitários de contribuir para os principais desafios contemporâneos (“verde”, digital, demográfico) financiando modalidades formativas quer para as novas gerações, quer para promover a requalificação dos adultos – o seu “reskilling e upskilling”. Pretende, por um lado, melhorar as perspetivas de empregabilidade ao longo da vida das pessoas residentes no país, ao aproximar mais o sistema de qualificações das múltiplas necessidades em permanente e cada vez mais acelerada mutação. Por outro lado, visa-se, assim, um país mais competitivo e, simultaneamente, coeso social e territorialmente.
Qualificar para um Mundo (do trabalho) em constante mudança
A transformação do mundo do trabalho não é apenas tecnológica. É também demográfica, ambiental, social, cultural e organizacional. A digitalização, a inteligência artificial, a automação e a transição verde estão a alterar tarefas, setores e modelos de negócio. Ao mesmo tempo, o envelhecimento da população, a transformação nos agregados familiares, a necessidade de maior inclusão social, a mobilidade profissional e a instabilidade das trajetórias laborais, tornam menos provável a ideia de uma carreira linear, construída a partir de uma única profissão ao longo da vida.
Neste contexto, as competências técnicas continuam a ser indispensáveis. Não há, por exemplo, transição digital sem técnicos qualificados, nem transição verde sem profissionais capazes de instalar, manter e melhorar infraestruturas, equipamentos e processos produtivos que respeitem as obrigações em matéria de sustentabilidade. A União Europeia sublinha que os sistemas de educação e formação são centrais para dotar jovens e adultos dos conhecimentos, aptidões e competências necessários para profissões específicas e, de forma mais ampla, para o mercado de trabalho. Estes percursos formativos são, por natureza, o segmento do sistema educativo mais próximo da economia e das necessidades concretas de qualificação (Comissão Europeia, 2022).
No entanto, preparar para o futuro não pode significar apenas ensinar a usar a tecnologia disponível hoje, ou uma determinada profissão. Isto porque, por um lado, uma competência técnica rapidamente pode tornar-se insuficiente se não for acompanhada por capacidade de atualização. E, por outro lado, porque sabemos pouco sobre aquilo que serão as (r)evoluções do mercado do trabalho do futuro. Um software muda, uma máquina é substituída, um procedimento é automatizado, uma profissão desaparece ou transforma-se, uma guerra ou uma doença inesperada surge nas nossas vidas. O que aí vem ninguém consegue prever com segurança, sem prejuízo da relevâncias dos exercícios prospetivos sobre o futuro.
É por esse motivo que as chamadas soft skills — ou competências transversais — deixaram de ser complementares e passaram a ser estruturantes, como o demonstram em regra os estudos sobre necessidades de competências. Comunicação, cooperação, pensamento crítico, criatividade, empatia, responsabilidade, gestão da incerteza, resiliência e capacidade de resolver problemas são competências que permitem transferir conhecimento entre contextos e responder a situações novas. A OCDE, no Learning Compass 2030, (OCDE, 2019) propõe uma visão particularmente relevante para este debate. O objetivo da educação e formação não é apenas transmitir conteúdos, mas dar às pessoas uma “bússola” que lhes permita navegar no desconhecido. Essa bússola combina conhecimento, competências, atitudes e valores. Inclui ainda três competências transformadoras: criar valor, reconciliar tensões e dilemas e assumir responsabilidade. Estas dimensões são especialmente importantes quando falamos das profissões d(n)o futuro, porque as pessoas terão de tomar decisões em contextos complexos, lidar com conflitos entre inovação e ética, produtividade e sustentabilidade, eficiência e inclusão.
Estes factos constituem um desafio, em si mesmo, para os sistemas de educação e formação. Se é inegável o valor acrescentado que as vias profissionalizantes trazem na preparação das pessoas para o mercado de trabalho – como aquelas que o PESSOAS 2020 financia nas regiões menos desenvolvidas do nosso território continental – essa formação é também importante para a cidadania. Evitar uma visão restrita do papel da formação, como apenas um instrumento de melhoria da empregabilidade, em sentido restrito, parece-nos ser muito relevante. Desde logo, porque a empregabilidade não deve ser apenas aferida pelo acesso ao emprego. É ter condições para permanecer ativo, aprender ao longo da vida, mudar de função, regressar à formação, progredir profissionalmente e participar de forma responsável na sociedade. O “gelo” é fino na definição destes conceitos, mas do nosso ponto de vista as vias profissionalizantes têm aqui uma vantagem clara, ao articularem formação sociocultural, científica, tecnológica e formação em contexto de trabalho, o que permite experiências reais, elas próprias em mudança.
Deste modo, a formação em contexto de trabalho deve ser, também, um espaço de aprendizagem sobre a mudança. O contacto com os empregadores permite às pessoas perceber que o trabalho é feito de uma capacidade de adaptação contínua e cada vez mais acelerada: adaptar-se a clientes, que num mundo globalizado podem ter origem em qualquer parte do mundo, a equipas, a normas, a ferramentas, a imprevistos, a prazos e a novas exigências. Quando bem acompanhada, a formação em contexto de trabalho desenvolve autonomia, responsabilidade, comunicação e capacidade de decisão.
A transição digital e verde exemplifica bem este aspeto, até porque as profissões associadas a essas áreas não se limitam a novas ocupações altamente especializadas, pelo contrário. A Comissão Europeia (Comissão Europeia, 2025b) sublinha que a transição verde e digital impacta todos os setores e profissões, incluindo ditas “tradicionais” como as do âmbito da construção, eletricidade, canalização ou manutenção industrial. Isto significa que muitas profissões – e experiências em contexto de trabalho – do futuro serão, na verdade, profissões já existentes, mas profundamente transformadas por novas exigências ambientais, tecnológicas e organizacionais. O sistema de qualificações deve ser, por isso, cada vez mais flexível, ágil e responsivo. A oferta formativa deve acompanhar a evolução das necessidades do mercado de trabalho, mas sem cair apenas numa lógica de curto prazo. O desafio é equilibrar dois tempos: o tempo, em regra, mais imediato do acesso ou manutenção do emprego e o tempo longo da adaptabilidade.
Para isso, é necessário flexibilizar currículos, reforçar parcerias com empregadores, valorizar a aprendizagem baseada em projetos, integrar competências de diverso tipo, promover orientação vocacional. E, sobretudo, garantir que todos compreendem a importância estratégica das competências que se procuram desenvolver em cada momento e em função das necessidades diversas das pessoas e dos territórios.
Neste contexto, também os professores e formadores são decisivos para este processo. Não há profissões d(n)o futuro sem educadores e formadores capazes de formar para o efeito, razão pela qual essa é também uma área apoiada pelo PESSOAS 2030, no âmbito da formação contínua desses profissionais. Os documentos europeus têm vindo a salientar a importância dos professores e formadores como recurso estratégico. A escassez, em quantidade e qualidade, de docentes e formadores constitui, em vários países, uma limitação à ambição europeia em matéria de competências, inovação e transições verde e digital (Cedefop, 2026), algo que importa mitigar.
Há, ainda um risco a evitar. Dizer que as pessoas devem ser hoje mais do nunca adaptáveis não pode significar deixá-las sozinhas perante a instabilidade. A capacidade de adaptação desenvolve-se em ambientes formativos exigentes, mas também seguros, inclusivos e orientadores. Exige professores e formadores preparados, entidades formadoras equipadas, currículos flexíveis, empregadores envolvidos e políticas públicas consistentes.
A rápida disseminação da inteligência artificial torna este debate ainda mais urgente. Muitas tarefas rotineiras podem ser (mais) automatizadas. Mas isso não elimina a centralidade do Homem. Pelo contrário, aumenta a importância das competências “humanas” que as máquinas não substituem facilmente: julgamento crítico, ético e moral, compreensão contextual, criatividade, relação interpessoal, empatia, responsabilidade e capacidade de interpretar problemas complexos. A questão não é competir com a tecnologia, mas aprender a trabalhar com ela, criticamente e com propósito.
Neste quadro, as microcredenciais e outras formas flexíveis de certificação vêm desempenhar um papel importante. A União Europeia (Comissão Europeia, 2025a) tem vindo a promover uma abordagem comum às microcredenciais como forma de apoiar a aprendizagem ao longo da vida, a empregabilidade e a atualização de competências. Estas podem ser particularmente úteis para responder a necessidades emergentes, permitindo que jovens e adultos acrescentem competências específicas ao seu percurso formativo. Contudo, não substituem percursos robustos de qualificação inicial e/ou mais longos, que devem ser a “infraestrutura” a partir do qual se podem, e devem, depois desenvolver essas microcredenciais.
É, mais uma vez, por isso que o papel do PESSOAS 2030 é tão relevante. Ao financiar sobretudo ofertas de formação inicial e contínua inseridas no nosso sistema nacional de qualificações, permite a produção de qualificações reconhecidas e devidamente certificadas. Investimos na tal infraestrutura social de preparação para o futuro. O financiamento permite criar condições para que mais jovens e adultos acedam a percursos de qualidade, que os aproximem das necessidades dos territórios e respetivos mercados de trabalho, promovendo por essa via também a inclusão e mobilidade social.
Em síntese, as profissões do futuro não devem ser entendidas como uma lista fechada de empregos a antecipar e para os quais o sistema de qualificações deve procurar dar uma resposta. Seria ilusório imaginar que conseguimos prever, com rigor, todas as ocupações que existirão nesse futuro tão imprevisível. O que podemos — e devemos — fazer é preparar mais e melhor as pessoas para lidar com a mudança e responder proactivamente à (r)evolução que ocorrerá, num mundo cada vez mais complexo. Porque como já dizia há mais de 500 anos Luís de Camões, poeta símbolo de Portugal, “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança. Todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades.”
Principais referências bibliográficas
Cedefop. (2026). Policy approaches to tackle VET teacher shortages in EU: Insights from national policy monitoring and analysis. Publications Office of the European Union. https://doi.org/10.2801/5087236
Cedefop. (2025). Portugal – 2025 skills forecast. Cedefop.
Comissão Europeia. (2022). Vocational education and training: Skills for today and for the future. Publications Office of the European Union. https://doi.org/10.2767/811982
Comissão Europeia. (2025a). Progress report on the implementation of the Council Recommendation on a European approach to micro-credentials for lifelong learning and employability. Publications Office of the European Union. https://doi.org/10.2766/3828178
Comissão Europeia. (2025b). VET’s role in the green transition: Transformative practices for tomorrow’s workforce: Final publication of the Working Group on VET and the Green Transition. Publications Office of the European Union. https://doi.org/10.2767/8703348
OCDE. (2019). OECD Future of Education and Skills 2030: OECD Learning Compass 2030. OECD.
World Economic Forum. (2025). The future of jobs report 2025. World Economic Forum.





