José Matias Alves
Professor associado jubilado da Universidade Católica Portuguesa
In Revista TER 56
Falar de “profissões de futuro” é, antes de mais, confrontarmo-nos com uma das maiores armadilhas do pensamento contemporâneo: a ilusão de que é possível antecipar com rigor o que o amanhã nos reserva. A aceleração tecnológica, a volatilidade dos mercados e as transformações estruturais da sociedade tornam qualquer exercício preditivo não apenas arriscado, mas potencialmente enganador. E, no entanto, a educação não pode furtar-se ao desafio de preparar os jovens para um mundo que ainda não existe.
Este ensaio breve procura articular cinco ideias fundamentais: a impossibilidade de prever com exatidão as profissões do futuro; a centralidade de uma formação humana plena que capacite as pessoas para o saber agir, transformar e empreender (é uma outra formulação para a educação técnica e tecnológica); a identificação de áreas ocupacionais emergentes; o aprofundamento dos pilares educativos enunciados pela UNESCO; e a necessidade de aprender a crescer juntos, como condição de uma sociedade mais justa e digna.
I. A Impossibilidade de Prever as Profissões do Futuro
O Fórum Económico Mundial estima que cerca de 65% das crianças que hoje frequentam o ensino básico virão a exercer profissões que ainda não existem (World Economic Forum, 2016). Esta projeção, por mais incerta que seja na sua precisão, encerra uma verdade incontornável: os sistemas educativos não podem organizar-se em torno de perfis profissionais rígidos e estáticos.
A OCDE, no relatório “The Future of Education and Skills: Education 2030” (OCDE, 2018), sublinha que o grande desafio não é dotar os estudantes apenas com competências técnicas específicas, mas dotá-los de agência, identidade e capacidade de navegação em contextos de complexidade e mudança permanente. Pretender mapear hoje as profissões de 2040 é uma ilusão — e uma ilusão perigosa, porque pode desviar os recursos educativos do essencial. Mas isto não significa dispensar os jovens de adquirir e desenvolver competências que os qualifiquem para intervir, de forma crítica e criativa, no mundo, na vida e na ordem laboral existente.
II. Formar Cidadãos Livres, Competentes e Comprometidos
Se a previsão das profissões é impossível, o que deve então orientar a educação? A resposta não é nova, mas precisa de ser reafirmada com urgência: a formação integral do ser humano. Mais do que técnicos eficientes (também necessários), a sociedade precisa de cidadãos livres, competentes, conscientes, criativos, compassivos e comprometidos com uma ordem social e laboral mais justa, digna, produtiva e transformadora.
Sebastião da Gama, poeta e professor português, escreveu que “ensinar é amar” o outro, a vida, o conhecimento que nos humaniza. Esta intuição pedagógica captura algo de essencial: a educação não se pode reduzir à transmissão de conteúdos ou ao treino de competências mensuráveis. Ela é, antes de tudo, um ato de humanização. Neste sentido, António Nóvoa (2022) defende que a escola deve ser um espaço de encontro — entre gerações, entre saberes, entre experiências e uma dinâmica interativa de co-construção de respostas para os problemas que nos afetam e inquietam.
A Comissão Internacional sobre os Futuros da Educação, coordenada pela UNESCO e presidida por Sahle-Work Zewde, publicou em 2021 o relatório “Reimagining our futures together: A new social contract for education”. Neste documento, reafirma-se que a educação deve ser entendida como um bem comum, orientada para a dignidade humana, a justiça social e a sustentabilidade ecológica. Não se trata de preparar apenas mão-de-obra — trata-se de construir pessoas e comunidades capazes de habitar o mundo com responsabilidade e criatividade.
III. Áreas Ocupacionais Reclamadas pelo Futuro
Reconhecida a impossibilidade da previsão rigorosa e afirmada a centralidade da formação humana, é, todavia, legítimo — e útil — identificar grandes áreas que, com elevada probabilidade, serão reclamadas pela vida pessoal, social e empresarial nas próximas décadas.
A OCDE e o Fórum Económico Mundial convergem na identificação de alguns domínios: as tecnologias digitais e a inteligência artificial; as ciências da vida e da saúde; a transição ecológica e as energias renováveis; a economia dos cuidados (saúde, educação, apoio social); a criatividade e as indústrias culturais; e a diplomacia científica e a governação global. Em Portugal, o relatório “Futuro do Trabalho em Portugal” (OIT/MTSS, 2020) aponta igualmente para a crescente relevância das competências socio emocionais, da literacia digital e da capacidade de resolução de problemas complexos.
Carlos Fiolhais, físico e ensaísta português, tem sublinhado a importância de uma cultura científica alargada como fundamento de qualquer participação cívica e profissional no século XXI. Não se trata de formar apenas cientistas, mas de garantir que todos os cidadãos disponham das ferramentas conceptuais para compreender e intervir num mundo crescentemente mediado pela ciência e pela tecnologia.
IV. Os Pilares da Educação segundo a UNESCO
Em 1996, a Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI, presidida por Jacques Delors, apresentou à UNESCO o relatório “Educação: Um Tesouro a Descobrir”. Neste documento seminal, foram enunciados quatro pilares fundamentais da educação: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a ser e aprender a conviver.
Aprender a conhecer implica desenvolver as ferramentas da compreensão — não a acumulação enciclopédica de informação, mas a capacidade de pensar de forma crítica e autónoma. Aprender a fazer vai além da competência técnica: é a capacidade de agir sobre o mundo, de transformar o conhecimento em ação criativa e responsável. Aprender a ser é talvez o pilar mais exigente: pressupõe o desenvolvimento da identidade, da liberdade interior, da consciência ética e da capacidade de fazer escolhas com significado. Aprender a conviver, por fim, é a dimensão relacional e cívica da educação — a capacidade de reconhecer o outro, de dialogar através da diferença, de construir projetos comuns.
Estes quatro pilares continuam plenamente atuais. Roberto Carneiro, que participou nos trabalhos desta Comissão, tem insistido na sua relevância como bússola para os sistemas educativos contemporâneos. Para Carneiro (2001), a verdadeira tragédia da educação moderna é ter privilegiado excessivamente o aprender a fazer — na sua versão mais instrumental — em detrimento dos restantes pilares, empobrecendo assim a formação humana e reduzindo a escola a um dispositivo de mera qualificação técnica.
V. Aprender a Crescer Juntos
A estes quatro pilares, propomos acrescentar um quinto, que emerge como imperativo ético e civilizacional do nosso tempo: aprender a crescer juntos. Não basta conviver — é necessário crescer em conjunto, partilhando vulnerabilidades e conquistas, construindo condições de florescimento coletivo que não deixem ninguém para trás.
Esta ideia ressoa com a noção de “buen vivir” presente em diversas tradições de pensamento não-ocidental, mas também com a ética do cuidado desenvolvida por autoras como Carol Gilligan, e com a noção de desenvolvimento humano sustentável promovida pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Em Portugal, diversos autores têm insistido na necessidade de uma “ecologia de saberes” — um reconhecimento de que o conhecimento não é monopólio de nenhuma cultura ou tradição, e que o crescimento humano implica aprender a escutar vozes que a modernidade ocidental sistematicamente silenciou.
Aprender a crescer juntos é, em última instância, a condição de possibilidade de todas as profissões do futuro que valham a pena. Uma sociedade que produz profissionais tecnicamente competentes, mas capazes de empatia, de solidariedade e de comprometimento com a justiça é um desiderato que não poder ser ignorado. A educação que o futuro exige é aquela que forma pessoas capazes de crescer — em humanidade, em saber e em responsabilidade — a par com os outros.
Conclusão
As profissões de futuro não se deixam prever com certeza. Mas o que o futuro exige da educação é claro: cidadãos livres, competentes, conscientes, criativos, compassivos e comprometidos. A bússola não são apenas os perfis profissionais do mercado — é a formação humana integral, sustentada nos pilares que a UNESCO enunciou e que continuam a interpelar-nos. Aprender a conhecer, a fazer, a ser, a conviver e a crescer juntos: eis o currículo invisível que nenhum relatório de prospetiva tecnológica conseguirá substituir.
Referências Bibliográficas
Carneiro, R. (2001). Fundamentos da Educação e da Aprendizagem: 21 ensaios para o século 21. Fundação Manuel Leão.
Delors, J. (coord.) (1996). Educação: Um Tesouro a Descobrir. Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI. Edições ASA/UNESCO.
Fiolhais, C. (2011). A Ciência em Portugal. Fundação Francisco Manuel dos Santos.
Nóvoa, A. (2022). Escolas e Professores: Proteger, Transformar, Valorizar. SEC/IAT.
OCDE (2018). The Future of Education and Skills: Education 2030. OECD Publishing.
OIT/MTSS (2020). Futuro do Trabalho em Portugal. Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social.
UNESCO (2021). Reimagining our futures together: A new social contract for education. UNESCO.
World Economic Forum (2016). The Future of Jobs: Employment, Skills and Workforce Strategy for the Fourth Industrial Revolution. WEF.





