Num mundo que corre a um ritmo, por vezes, alucinante, onde a produtividade se torna a medida do valor e a agenda dita o ritmo das nossas vidas, surge uma pergunta urgente: como é que estamos a moldar o tempo das nossas crianças? Entre horários profissionais e escolares exigentes, atividades extracurriculares sucessivas e expectativas sociais crescentes, muitas vezes esquecemos que a infância é, acima de tudo, um período que deveria ser marcado pelo mais simples: brincar, errar, explorar, aprender, sonhar…
A velocidade do ritmo diário da vida dos adultos contagia inevitavelmente a vida das crianças. Somos pressionados por um sistema que valoriza os resultados, os desempenhos e a antecipação constante, pelo que muitos pais e educadores acabam, sem intenção, por replicar e aplicar essa lógica na própria rotina das crianças.
O tempo, que deveria ser espaço de crescimento e descoberta, transforma-se num calendário apertado, onde pouco sobra para a liberdade de se ser CRIANÇA.
Mas as consequências desta viagem frenética do dia a dia são profundas. Psicólogos e educadores têm alertado para o impacto da falta de tempo livre no desenvolvimento emocional e social das crianças. Brincar, atividade que é tantas vezes desvalorizada, mas que é tão essencial para construir a autonomia, a autoestima, a criatividade e a capacidade de resolução de problemas. É no jogo espontâneo que a criança experimenta o mundo e aprende a relacionar-se com ele.
Se juntarmos à falta de tempo para brincar a utilização da tecnologia sem regra, a falta de contacto com a natureza e até mesmo a falta de tempo de qualidade entre pais e filhos, a infância fica ainda mais condicionada.
A infância não pode ser vista como uma pré-etapa da vida adulta. É uma fase com valor próprio e muitíssimo determinante para que tenhamos adolescentes e, consequentemente, adultos bem resolvidos e sucedidos.
A infância é uma fase que exige presença, afeto, estabilidade e, acima de tudo, tempo: tempo para crescer ao seu ritmo, para cometer erros, para imaginar, para criar memórias.
Enquanto sociedade civil, é urgente questionarmos: como garantir às crianças o tempo de que verdadeiramente necessitam? Podemos começar por gestos muito simples, mas transformadores e com impacto positivo: diminuir o excesso das atividades estruturadas, reservar momentos diários para brincar livremente e ao ar livre, reduzir a pressão por resultados escolares, promover a convivência familiar sem ecrãs, e valorizar as pausas e o tempo de qualidade em família tanto quanto valorizamos a aprendizagem formal.
A proteção da infância não se faz apenas com segurança física ou acesso à educação e saúde! Faz-se também com a defesa de um bem cada vez mais escasso: o tempo de ser criança. Num mundo que não para, talvez o maior ato de cuidado seja ensinar crianças, e até os próprios adultos, a parar, a respirar, a sentir e a viver plenamente a sua infância, sem pressas e sem pressões.
Porque, no fim, aquilo que verdadeiramente fica não são os horários cumpridos e a correria diária, mas as experiências vividas.E essas só acontecem quando há tempo para ser e sentir. Tempo para brincar. Tempo para crescer. Tempo para ser criança.





