“Nunca, no mundo real, houve tão poucos crimes com crianças. A maior parte dos crimes acontece no mundo digital”

Hugo Rodrigues

pediatra

In Revista TER 54

Tem, à primeira vista, opiniões polémicas. Diz que do que as crianças mais necessitam é de brincar. Que os trabalhos de casa são pouco úteis e interferem com a rotina familiar. Que o excesso de proteção é um problema de saúde pública. Que a enorme quantidade de tarefas com que sobrecarregamos os nossos filhos violam o próprio Código do Trabalho. Que o verdadeiro problema do uso dos ecrãs começa nos adultos.

Mas, no contexto que uma conversa possibilita, tais opiniões surgem, como adiante se verá, com uma naturalidade e uma pertinência que deveriam levar-nos a refletir sobre a qualidade do tempo que passamos com as crianças, sobre o que as faz e nos faz felizes.

Conversar com Hugo Rodrigues – pediatra, pai de dois filhos, docente na Escola Superior de Saúde de Viana do Castelo e na Escola de Medicina da Universidade do Minho, autor de vários livros, entre eles O Livro do seu Bebé (Contraponto, 2020) e O Livro Mágico do Avô João (Porto Editora, 2020), autor do projeto Pediatria para Todos e presença regular nos meios de comunicação socia – foi um privilégio agora partilhado com os leitores da TER.

TER – Tem defendido, quer nos trabalhos publicados, quer em entrevistas, a necessidade de que as crianças tenham tempo para brincar. Ora, a tendência parece ir no sentido contrário visto que estudos recentes mostram que as crianças brincam menos de uma hora por dia em família. Porque é tão urgente que brinquem? E porque considera a ausência de brincadeira um problema de saúde pública?

Há quem defenda que o verdadeiro trabalho das crianças é brincar, explorar-se a si, aos outros e ao mundo que as rodeia. Através dessa ação adquirem, de uma forma lúdica e natural, todas as competências de que necessitam para o seu crescimento e desenvolvimento.

TER – E sabemos isso desde Piaget…

Exatamente. A verdade é que não brincamos para aprender. Aprendemos naturalmente ao brincar quando se trata de brincadeira livre, não estruturada, em diferentes contextos e com diferentes pessoas. Dessa forma, as competências das diferentes áreas do desenvolvimento vão-se somando quase sem darmos por isso.

TER – É o contrário de quase termos horas marcadas para estimular competências: hora da música, do ballet, da natação…

Sim, sempre coma obsessão de uma finalidade. Na verdade, devemos olhar para o brincar como um fim em si. Um meio que permite à criança adquirir tudo que necessita, principalmente nos primeiros anos de vida. Do ponto de vista psicomotor, temos de perceber que os bebés nascem sem qualquer conhecimento do mundo, são seres eminentemente sensoriais, vão receber informação através dos sentidos e começam a integrar essa informação ajustando as suas habilidades e competências para reagir ao que vai surgindo.

TER – Digamos que se trata de uma adaptação ao meio.

Sim, este desenvolvimento compreende a motricidade global e a postura, aprendendo a lidar com algo tão natural como a força da gravidade. Manter-se de pé é dos maiores obstáculos que os bebés têm de superar após o nascimento e só conseguem fazê-lo explorando o corpo e o ambiente. Depois, temos a questão da visão e da motricidade fina, a adequação do movimento das nossas extremidades, das mãos, um movimento detalhado, minucioso, a coordenação entre a visão e as mãos que nos dá uma noção corporal muito mais detalhada. Uma terceira área diz respeito à audição e à linguagem, a forma como reconhecemos os diferentes sons e lhes damos significado num processo que é extremamente complexo. Uma última área é a da adequação social, a forma como interagimos e nos relacionamos com os outros.

TER – E brincar estimula estas áreas?

Estas áreas são naturalmente estimuladas pelo brincar. Mais nenhuma outra atividade estimula todas estas áreas ao mesmo tempo. Com efeito, conseguimos, com uma única atividade, ir ao encontro das necessidades das crianças.

TER – O brincar é, portanto, essencial ao desenvolvimento?

Sim, mas o desenvolvimento não se fica por aqui. Para além do desenvolvimento psicomotor, há outras áreas de que se fala menos e são muito importantes. O desenvolvimento psicomotor dá resposta ao que podemos chamar eu sensorial através do qual a criança se conhece e conhece o mundo. Mas temos, depois, a área do conhecimento psicoafectivo, que é a forma como as crianças se reconhecem enquanto pessoas, interiorizando as diferentes experiências, todas os cuidadores, as pessoas de referência como pilares. Outra vertente tem a ver com o desenvolvimento psicossocial, em que as crianças se reconhecem como seres em relação com os outros. Temos, assim, o conhecimento do ambiente, do eu enquanto pessoa, e o conhecimento do eu enquanto ser em relação com os outros. Só com o brincar conseguimos tocar todos estes pontos de uma vez só.

TER – E, ao brincar, a criança confronta-se com algo a que o professor Carlos Neto dá grande ênfase: a necessidade de se deparar com os seus próprios limites, de lidar com a frustração, de ter momentos de tédio, algo que hoje parece assustar-nos muito.

É verdade. É outro aspeto essencial da aprendizagem. Há três componentes essenciais para o sucesso. A criatividade, a capacidade de resolver problemas e a cooperação/comunicação. Brincar estimula os três. E, falando do tédio, há momentos em que a criança se sente perdida, sem saber o que fazer, e esse momento de tédio estimula a criatividade, leva-a a utilizar o que tem – um lápis, uma planta, a imaginação… – para resolver o problema e encontrar uma saída. Se está sozinha e resolve o problema, vai, de seguida, interagir com quem está perto de si.

TER – Por vezes, parece haver receio de que a criança esteja desocupada. Fala-se, por exemplo, na necessidade de lhe ocupar os tempos livres. Ora, se forem ocupados, já não são livres.

Costumo dizer o mesmo. Estou plenamente de acordo. Os tempos livres devem ser para não fazer nada.

TER – Voltemos à questão da importância de perceber os limites e lidar com a frustração. Acontece ao brincar? E, por outro lado, o excesso de proteção inibe essas aquisições?

O excesso de proteção é um problema grave pelo qual as nossas crianças estão a passar neste momento. Parte de uma boa intenção, mas não deixa de ser prejudicial. E temos aqui uma dicotomia que é, no mínimo, estranha: as pessoas têm muito medo de dar liberdade às crianças, porque os tempos hoje “não são como eram antes” …

TER – Haverá mais insegurança, eventualmente…

É preciso desmontar essa ideia. E daí a dicotomia. Queremos manter as crianças em casa, onde achamos que estarão protegidas. Mas acontece que, muitas vezes, em casa estão ligadas à internet através de dispositivos. Vamos desmontar essa noção de perigo. Nunca, na história da humanidade, houve tão poucos crimes contra crianças como atualmente. Mas o que acontece é extraordinariamente mediatizado, globalizado. E um crime cometido nos Estados Unidos é como se acontecesse aqui. Isto molda a nossa perceção da realidade.

TER – E gera insegurança.

Claro, Retiramos a criança do mundo real, supostamente perigoso, mas deixamos que aceda ao mundo digital onde efetivamente acontece a maior parte dos crimes com crianças. Mais uma vez, a intenção será boa, mas é completamente perverso o que estamos a fazer. Retiramos as crianças de um mundo saudável e seguro para as meter num mundo perigoso. Fazemos o contrário do que devíamos.

TER – Quanto à relação entre o trabalho e a escola, defende que os trabalhos para casa, no primeiro ciclo, são pouco úteis e roubam tempo à vida em família.

Vários estudos recentes são praticamente consensuais sobre essa inutilidade. Os trabalhos para casa foram pensados numa altura em que a carga letiva era reduzida e se entendia que a repetição favorecia a aprendizagem. Agora, quando temos cargas mais elevadas, mantemos o processo, mesmo sabendo que a repetição não é a melhor forma de aprender. Do ponto de vista social, o impacte na qualidade de vida das crianças e dos pais é muito negativo.

TER – Porquê?

Porque crianças e pais chegam a casa cansados, depois de uma correria de cumprimento de tarefas diárias, o que aumenta a probabilidade de haver conflitos. E há. Não acontece aprendizagem e perde-se tempo de qualidade em família.

TER – Não funciona.

Até podemos analisar a questão olhando para o Código Geral do Trabalho. Diz coisas interessantes sobre o trabalho infantil. Diz que as crianças não podem fazer trabalho suplementar, que não podem trabalhar depois das 20h00, que devem ter dois dias de descanso, de preferência consecutivos, por cada cinco dias de trabalho…. Portanto, no fundo…

TER – Estamos a desrespeitar o Código o Trabalho (risos).

O Código do Trabalho proíbe os trabalhos de casa (risos). Uma vez mais, a intenção é boa, mas não funciona. Sou de opinião que, para bem de todos, os trabalhos de casa devem cair.

TER – A gestão do tempo dos pais é outro problema.

Sim, condiciona o ambiente familiar. O trabalho está organizado em função das necessidades das entidades empregadoras e não do que as crianças precisam. Não corresponde à organização do dia das crianças. Por isso é que se recorre, muitas vezes, às atividades extracurriculares, porque os pais não conseguem estar disponíveis. E, em relação a isso, sou maleável. Se forem prazerosas para as crianças, se estimularem áreas diferentes das estimuladas na escola e se servirem para colmatar esse espaço em que a criança não tem com quem ficar…

TER – Acha que é importante haver regras para gestão do tempo em família? Tempo para dormir, para refeições… E não acha que há, por parte dos pais, um excesso de permissividade?

A organização do dia a dia é, a meu ver, a chave do sucesso. Podemos resumir as necessidades básicas: deitar cedo, ou seja, descansar; refeições em família com tempo para desfrutar; tempo para brincar. Devem ser as prioridades de qualquer família.

TER – E quanto ao tempo que as crianças passam nos ecrãs?

Mais preocupante é o tempo que os adultos passam nos ecrãs. Os adultos portugueses passam, em média, sete horas e meia por dia nos ecrãs…passam duas horas e meia nas redes sociais…. Alguma coisa não está bem quando não temos meia para brincar com os nossos filhos, mas temos para duas horas e meia nas redes sociais.

TER – E, depois, temos aquela situação altamente perturbadora que é vermos famílias nos restaurantes e não conversam. Cada um está fechado no seu ecrã.

O verdadeiro problema é o uso por parte dos adultos. Até pelo exemplo. De que vale dizer ao meu filho que não o faça, se eu o faço? Um pai que fuma, não o faz junto de um filho pequeno, não quer dar um mau exemplo. Porque não faz o mesmo com o telemóvel? Se diminuirmos o tempo de exposição a ecrãs por parte dos adultos, acabaremos por melhorar em relação às crianças.

TER – E, do seu ponto de vista, como devemos gerir o tempo de acesso aos ecrãs nas crianças?

Bem, se houver a organização do dia de que falei – sono, refeição, brincar – já estamos a diminuir. Só depois devemos passar às recomendações. Em Portugal, a Sociedade Portuguesa de Neuropediatria e a Direção Geral de Saúde têm vindo a debater o problema num grupo de trabalho de que faço parte. De qualquer forma, há um relativo consenso: até aos três anos, não deve haver ecrãs; entre os quatro e os seis, apenas meia a uma hora por dia; entre os sete e os onze, uma hora; depois dos 11, duas horas. Mas, mais importante do que o tempo, é a sua qualidade. Meia hora de lixo é pior que uma hora com um bom conteúdo.

TER – A família deve estar presente?

Será o ideal. Não deve, nunca, haver interferência com momentos chave e crianças inativas, que não têm qualquer atividade física, não devem utilizar. O problema tem a ver com a forma como os ecrãs são viciantes ao estimular as zonas de recompensa do cérebro. Este estímulo nas zonas de prazer é tão intenso que é desigual para tudo o resto e ganha preponderância. Poucas outras atividades fazem o mesmo. É obrigação das famílias, ao introduzir os ecrãs, fazer com que isso não afaste as crianças das atividades que faziam antes: brincar, ler, estar em contacto com a natureza…. Se assim não for, agigantamos os ecrãs e diminuímos tudo o resto. Tudo o resto passa a ser uma seca. É preciso dizer que não sabemos, ainda, a dimensão das consequências desta situação, porque a geração que cresceu com os ecrãs apenas agora está a chegar à idade adulta.

Entrevista conduzida por Arnaldo Varela de Sousa