Teresa Lago: “A primeira vez que entrei de calças na missa, em Vila Verde, fui expulsa”

Teresa Lago

professora

In Revista TER 51

Pertence à geração que ansiou pelo 25 de abril e o festejou, soltas as amarras de uma ditadura que envilecia a vida quotidiana, as opções, as relações, as oportunidades.

Teresa Lago, professora de Português aposentada, foi fundadora do MEA – Movimento Sociocultural de Apoio à Infância, fundadora e membro do primeiro Conselho Diretivo da Escola Monsenhor Elísio Araújo, no Pico.

Na primeira manifestação de apoio ao 25 de abril, em Vila Verde, no domingo que se seguiu à revolução, aos 23 anos, discursou na varanda da Câmara em representação dos jovens do concelho.

Tanto ou mais que um retrato pessoal, esta entrevista configura, ao fim e ao cabo, a identidade de uma geração.

TER – Como era o Portugal em que cresceu?  Como era Vila Verde?

Nascida antes do 25 de Abril, no seio de uma família de classe média-baixa, vivi uns largos anos sob o domínio de um regime ditatorial, autoritário, conservador, onde a palavra liberdade era desconhecida. Portugal era um país pobre, analfabeto, inculto, atrasado, mas obediente. O seu povo vivia essencialmente da agricultura.

As famílias, numerosas (pais, filhos, avós), viviam em casas sem condições de higiene e privacidade. O homem detinha o poder e a autoridade, a mulher obedecia ao marido e a sua função era ter filhos e criá-los segundo os preceitos da religião católica e na cultura do estado. Os casamentos eram católicos e os divórcios proibidos. Não havia serviço de saúde e, na educação, poucos completavam o ensino secundário e a universidade era apenas para alguns. As relações amorosas resumiam-se ao namoro – noivado – casamento. Os rapazes recorriam à prostituição e, às raparigas, eram-lhes impostos, comportamentos rígidos… O aborto era crime e a homossexualidade um pecado.

A censura controlava os meios de comunicação social, os filmes, considerados fora dos cânones vigentes, eram proibidos ou algumas cenas eram cortadas. Os livros e as músicas também passavam pelo crivo do “lápis azul”.

Vivíamos uma guerra colonial, que vitimou muitos dos nossos jovens ou lhes deixou sequelas físicas e psicológicas. Acresce-se, ainda, uma forte emigração. Estes dois acontecimentos originaram falta de mão-de-obra, permitindo à mulher aceder a trabalhos noutros setores e contribuindo para a abertura de Portugal ao mundo.

TER – E como era em Vila Verde, uma pequena vila?

Em Vila Verde não era diferente: vivíamos num pequeno mundo fechado, onde todos se conheciam. A miséria levava os alunos à escola com fome, frio (no inverno as meninas traçavam um xaile no corpo, onde colocavam uma pedra aquecida na lareira, para aquecer as mãos e os rapazes seguravam as calças rotas, ou remendadas, com uma corda ou uma única alça). Todos os dias o sino tocava por um “anjinho” que falecera. As mulheres, descalças e com medo de serem multadas, subiam a vila com sacos enormes de pruma à cabeça. A violência doméstica era uma constante, normalmente provocada pelo álcool. Na mercearia praticava-se o “fiado” e, quem levava algum dinheiro, comprava cinco tostões de sal, uma “carta” de sabão… Havia muita pobreza, mas, também, solidariedade.

TER – Era um Portugal amordaçado, constrangido…

Sim, é evidente que eram muitos os constrangimentos. Deviam-se à falta de liberdade, a uma imposição moral e religiosa e porque vivíamos aprisionados pelas regras arcaicas de um regime impositivo, doentio, que exigia de nós silêncio e ignorância.

TER – E consigo, como foi?

Obrigou-me a silenciar as minhas ideias e dificultou-me o acesso a determinadas leituras e músicas ao mesmo tempo que me impediu a vivência de uma juventude aberta, livre. É certo que o nosso mundo era pequeno e não tínhamos outras referências, mas o meu pai e amigos com quem falava, sempre me iam informando e alertando do pouco que sabiam.  Depois, há as minhas viagens a França, de onde vinha com mais conhecimentos. Se a liberdade é a fonte da vida e eu não a tinha, esse tal espaço para a expressão individual, não existia ou era vivida com muito medo.

TER – Sente que havia repercussões no que respeita à personalidade de cada um?

Posso dizer que essa repressão me tornou numa pessoa fechada, inibida, com medos, receios, que eu tentava desbloquear. Os meus pais, pessoas à frente do seu tempo, aceitavam algumas das minhas atitudes, mas com limites e receio dos comentários. Sei que desafiei o lugar onde vivia: fui a primeira rapariga a usar calças, maxi, minissaia e a pintar-me, mas, muitas vezes, era motivo de chacota e comentários maldosos (quando entrei na igreja de calças, fui expulsa); sair à noite, só até às 22 horas; ir a uma boate, só com o meu irmão a acompanhar. É certo que, tudo isto, influenciava a minha vida enquanto pessoa.

TER – Mas aceitava essa situação passivamente? Ou começou a revoltar-se?

Bom, não posso falar de um momento preciso, mas, sem, aconteceu. Resultou de todo um percurso de vivências, algumas já apontadas, que se foram acumulando. No entanto, alguns episódios aumentaram a minha revolta. Para evitar uma possível ida para a guerra, o meu irmão António decidiu estudar em França. Passados quatro anos, numas férias em Portugal, encontrou-se com os seus amigos num estabelecimento comercial. O António, que frequentava a universidade num país livre, informava os seus colegas sobre a política dos dois países. De repente, de arma em punho, surge um informador da Pide: “- Quem é? – perguntou”. Alguém o indicou. De imediato, dirigiu-se a ele, mas, que surpresa, o António era seu afilhado de batismo, mandou-o para casa.

Uma amiga, solteira, engravidou e o namorado não assumia a paternidade. Teve de se sujeitar à “examina”: ser observada por um médico na presença do delegado e escrivão do Tribunal (na altura o meu pai era o escrivão e padrinho da rapariga). E esta foi uma entre várias. Eram motivo de chacota, a culpa era delas e não se livravam desse estigma. Na altura não havia a pílula.

TER – Ser mulher não era fácil!

É verdade. À parte outros estudos, no Porto, estudei Solicitadoria. Um dia desloquei-me a um bairro pobre, juntamente com um funcionário do Tribunal e um agente das forças policiais onde deveríamos proceder a uma ação de despejo. Aí chegados, aparece uma senhora obesa, baixinha, com onze filhos pequenos à sua volta. Ajoelharam-se diante de mim, implorando que não lhes tirasse a casa, não tinham para onde ir. Não imaginam a minha revolta, a minha impotência perante tal situação. Voltei ao escritório, recusei aquele serviço. Outras situações se foram acumulando e, por fim, para deceção dos solicitadores e advogados com quem trabalhava, entreguei o cartão profissional e desisti.

TER – Eram situações trágicas…

Outra situação que me marcou foi a partida dos soldados para a guerra. A saída do autocarro era em frente à minha casa. Que dizer daquelas mulheres, familiares, vestidas de negro e vergadas pelas lágrimas, vendo os seus filhos partir? Indescritível! Até hoje, evito vestir-me de preto, as memórias são demasiado pesadas.

TER – Falou de uma estadia em França…

Marcou-me muito. Durante três meses, em França, li o que queria: Gustav Flaubert, Karl Mark … e ouvi músicas proibidas. Participei em reuniões do PCF (o meu tio era dirigente local) onde se falava sobre Portugal e seus horrores; assisti, via televisão, ao golpe militar no Chile e massacres que se seguiram; participei numa marcha silenciosa de apoio ao povo chileno… Chegada a Portugal, os meus amigos nada sabiam. Refiro, ainda, os relatos da minha mãe sobre a 2ª Guerra Mundial a que ela assistiu. Vivia na fronteira com a Alemanha e, com 9 anos, teve de fugir, órfã de pai. Consciente de todas estas situações e o que elas implicavam, sim a minha revolta cresceu.

TER – Houve artistas que a influenciaram nessa tomada de consciência?

Respondo com uma certa nostalgia. Quando ouvia as suas canções, as lágrimas soltavam-se, pois as letras, de forma velada, transmitiam fortes emoções. Destaco Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Fausto, José Mário Branco… e estrangeiros como Joe Dassin, Georges Moustaki, Chico Buarque…

TER – Mas não era possível exprimir publicamente o seu descontentamento…

Não, não era fácil, na altura, ter atitudes que fossem contrárias ao regime e às imposições morais e religiosas. Por isso, fui criando o meu próprio caminho confiando na minha sabedoria interior, manifestando o meu verdadeiro Ser, sempre por amor, sempre por consciência, mantendo-me firme nos meus desejos e sendo fiel à minha essência. Este processo foi moroso e abrangeu diversas fases da minha juventude.      

TER – Imagino que o 25 de abril tenha sido uma libertação. Como viveu esse momento?

Ainda tenho bem presente esses momentos. No início, não acreditei, só quando cheguei a casa e o meu pai me abraçou a chorar, é que caí na realidade. Eufórica, assisti, via televisão, ao acontecimento. A multidão, colorida pelo vermelho dos cravos que nasciam dos canos das espingardas, encheu as ruas e vibrou num mar de emoções. Depois, com os meus amigos, abraçamo-nos, choramos, saltamos, cantamos, numa alegria sem fim. Durante uns tempos senti-me flutuar num mar de liberdade, de euforia, de comunhão, onde todos sorriam numa sintonia estonteante de liberdade e fraternidade. E assim iniciei o meu processo de liberdade como pessoa.

TER – E discursou, em representação dos jovens do concelho, na primeira manifestação de apoio ao 25 de abril em Vila Verde.

É verdade. Foi logo no domingo seguinte. Foi uma emoção muito grande!

TER – Portugal abriu-se, de facto. Acha que foi um processo moroso?

Com o 25 de Abril, abriu-se uma nova era rumo à liberdade. Fundou- se um estado democrático com uma nova ordem, uma nova identidade, com um governo escolhido livremente pelo seu povo. Portugal abriu-se à Europa e ao mundo. A mulher ganhou mais independência e partiu em busca da sua identidade, respeito, dignidade. As famílias diminuíram na sua dimensão e os divórcios foram permitidos. O mundo rural começou a decair.

Na saúde, foi criado o Serviço Nacional de Saúde para todos; na educação, com a criação do Programa de Educação para Adultos, muitos aprenderam a ler, escrever e adquiriram algumas competências que lhes permitiu ter acesso a determinados empregos; foram criadas as Escolas Profissionais, uma mais-valia para o desenvolvimento do país; o acesso ao ensino universitário abriu-se para todos. Observou-se uma grande evolução, nas condições de habitabilidade, (água, eletricidade, esgotos), meios de comunicação, …

Claro, que neste processo nem tudo foram cravos. Carlyle, na sua História da Revolução Francesa, escreveu: “As revoluções são sonhadas por apaixonados, realizadas por homens determinados, mas quem se aproveita são os oportunistas de todas as espécies”, e eu concordo: o povo português, na sua bondade, na altura tudo perdoou, e os ânimos, adormecidos, foram acordando.

TER – Insisto. Foi moroso?

(hesita) Talvez, todos queremos muito e depressa, mas, se decorreram, apenas, 50 anos, nos quais me senti integrada, acho que demorou o tempo que foi necessário e permitido. As diferenças são inquestionáveis.

TER – Passaram cinquenta anos. Que balanço se pode fazer?

Somos um país mais livre, mas não livre. Se houve avanços, progressos, sucessos, também houve erros, falhas, fracassos, resultantes da nossa incapacidade, como cidadãos, de o fazer, no sentido de uma diminuição das desigualdades, pobreza, corrupção, injustiças, subserviência, cunhas, e, sem isto, não há liberdade total.

Falta ainda, cumprir o Amor a Portugal.

Continuemos a lutar pelos ideais de abril!

Entrevista conduzida por Arnaldo Varela de Sousa