Faço teatro amador desde 1992, no Teatro Popular de Espinho, integrado na Cooperativa Nascente e, desde 1996 que colaboro regularmente, em regime de voluntariado, no CINANIMA – Festival Internacional de Cinema de Animação, organizado pela Nascente e pelo município: é neste contexto que surge o convite da Revista TER para partilhar com os seus leitores a minha opinião a propósito do humor no cinema animado de autor.
Como ator amador de teatro, e posteriormente como ativista da palavra dita, sempre me senti atraído pelas águas do humor, seja pela leitura de textos humorísticos ou abraçando essa vertente da criatividade e criar personagens que, através do humor comentava o quotidiano ou explorava novos mundos. E, há que ser sincero: as fundações desse espírito criativo surgem muito do que aprendi a ver filmes de animação de autor no CINANIMA desde miúdo e, principalmente, da adolescência em diante.
Um festival como o CINANIMA não é dedicado a cinema para crianças: o cinema de animação de autor é uma forma de expressão artística que, através das imagens em movimento explora os sonhos, perspetivas, angústias e emoções do artista. Como tal, grande parte das obras exibidas num certame desta natureza exigem uma maturidade de compreensão ou implicam uma abstração que não é própria do cinema comercial de animação focado normalmente para um público infantil.
Num festival de cinema de animação encontramos, em cada sessão, obras sombrias e oníricas, obras dramáticas e realistas, obras experimentais e completamente abstratas, obras documentais, e uma dose muito grande de obras que são essencialmente exercícios de relatar o real com humor.
Para mim, enquanto espectador, o humor, como forma de expressão criativa, é isso mesmo: um meio, um veículo para contar o mundo, para o apropriar e, depois, partilhar com o público, que é também devolver essa visão do mundo ao próprio mundo.
Como conceito literário, o humor é, classicamente entendido como “Predisposição do espírito para o cómico.”, depois compreendido como algo que “implica uma atitude do Homem perante a vida e si próprio enquanto ser humano, pressupondo a consciência do seu carácter ridículo mas também sublime”, e, hoje em dia é considerado como “fundamentalmente a capacidade de exprimir as excentricidades de determinada acção ou situação que são susceptíveis de provocar o riso” (aqui socorri-me dos conhecimentos do E-Dicionário de Termos literários de Carlos Ceia, disponibilizado online pela FCSH da universidade Nova de Lisboa).
Portanto, vou focar-me nesse aspeto de aumentar as excentricidades e realçar o grotesco de forma graciosa e simpática e dar alguns exemplos que, de entre o cinema animado europeu de um determinado período (vou focar-me na década de 90) para mim são obras fundamentais e que qualquer apreciador de cinema de animação e do humor em geral deve conhecer (e estão todas disponíveis no Youtube ou no vimeo):
– “Au bout du monde”, Konstantin Bronzit (1999; Rússia): Palavras para quê. Filme sem diálogos sobre a seguinte premissa: nos confins de uma cordilheira uma família mora numa casa instalada exatamente no cume de uma montanha. A partir daqui são várias as peripécias e gags que a situação cria e Bronzit aproveita magistralmente.
– “Rubicon”, Gil Alkabetz (1997; Alemanha): o realizador pega naquela adivinha clássica do barqueiro que tem que transportar uma ovelha, um lobo e uma couve de uma margem de um rio para a outra (um de cada vez e sem que o lobo possa comer a ovelha e esta a couve) e transporta isso para uma divertida divagação sobre esta história e os limites lógicos do desafio inerente, com momentos hilariantes de extrapolação das situações possíveis.
– Os dois primeiros filmes com as personagens “Wallace and Gromitt” (“A grand day out”, 1989, e “The wrong trousers”, 1993; Reino Unido), de Nick Park (o mesmo autor de “A Fuga das Galinhas”), são um bom exemplo de algo que depois se tornou em cinema comercial, mas no início era simplesmente cinema de animação de autor, com bonecos de plasticina em stop-motion (que na época demorava uma eternidade a fazer um filme destes). Em ambos os casos o humor britânico é marcante, e o contraste da distração fleumática de Wallace (engenheiro criador de engenhocas) com a perspicácia e paciência do seu cão Gromitt são a coluna vertebral da maior parte das situações que nos fazem sorrir. Há humor físico misturado com piadas finas à forma de viver na cultura Britânica; há ficção científica e mistério. No fundo, a magia destas duas curtas de Nick Park vai do equilíbrio entre as referências e diálogos e o ritmo.
– “Le Moine et le Poisson”, Michael Dudok (1994; França): Um monge, durante o exercício da suas tarefas quotidianas encontra um peixe e, primeiro por questões práticas e depois por uma obsessão, insiste em tentar capturar o peixe: o que se transforma numa demanda de uma vida. Outro filme sem qualquer tipo de texto e um fabuloso exemplo de humor não verbal, assente em ritmo e trabalho de expressão corporal do personagem principal, mas que vive muito da composição em geral e da forma como o traço delicado se articula com a música (‘La Foglia d’Espagne’, de Corelli) e que transforma esta alegoria filosófica numa obra simultaneamente humorística mas extremamente espiritual.
Com estes quatro filmes aprendi a ver o mundo de outra forma e a pensar criativamente as coisas como tendo sempre um potencial de humor simples, sem gozo, apenas pela graça de brincar com os conceitos, de acrescentar dimensão a uma situação ou aspeto de personalidade ou simplesmente de contar uma história com ritmo e uma visão bem disposta.
O meu conselho é que façam também esse exercício e, neste admirável mundo novo e global, possam descobrir muitas outras obras de cinema animado de autor em que o humor tem um papel principal.





