É um dos nomes grandes do cinema de animação português. “Estória do gato e da lua”, de 1993, ou “Os olhos do farol”, de 2010, ambos galardoados em festivais em Portugal e no estrangeiro e alvo de um amplo reconhecimento nacional e internacional, são autênticos poemas visuais, expressão de uma criação autoral que não cede a modas, que reivindica um espaço próprio avesso à normalização.
Realizador, investigador, professor universitário, o seu trabalho estende-se por curtas-metragens, videoclips, workshops, publicações.
Aprazada para demorar meia hora, a conversa deixou-se prolongar pelo prazer de partilhar ideias, inquietações, esperanças. Tanto como pela sua obra, viajou-se pelo cinema de animação em Portugal, pelo estado da cultura, pela globalização, pela premência de defender uma identidade cultural que nos permita encontrar o nosso próprio rosto, mas saiba, também, abrir-se ao mundo.
Ou como diria Miguel Torga, de quem a dado momento se falou, o universal não é mais do que o local sem fronteiras.
TER EPATV – Manuel Matos Barbosa, nome histórico do cinema de animação português, afirmou um dia que, e passo a citar, “o cinema de animação é mesmo para um indivíduo transgredir por todo o lado e fazer coisas que com a imagem real é difícil”. Revê-se nesta definição?
Pedro Serrrazina – Parece-me uma definição perfeita, pessoalmente revejo-me muito nessa visão. Não faz sentido usar as possibilidades que o cinema de animação nos dá – criar imagens de raiz – para, depois, replicar o que o cinema de imagem real produz. Não faz sentido que uma forma de expressão visual que se desenvolve quase no cruzamento entre o cinema, a fotografia e a banda desenhada sirva para dar representação a algo que pode ser captado através da imagem real. A frase do Matos Barbosa sintetiza, afinal, todo o potencial da animação…
TER – Será, por outro lado, uma forma de escapar à normalização.
Sim, assistimos a uma normalização dos produtos de consumo cultural audiovisuais, cada vez mais formatados para um tipo de linguagem narrativa hiper-realista que não se justifica no contexto da animação.
TER – Colocando um pouco o foco sobre o cinema de animação de autor, podemos falar de uma resposta à comercialização – a um cinema mais comercial e que tem em vista o lucro – sendo esse cinema de autor mais experimental e criativo, um pouco na fronteira das artes plásticas?
Para mim, a animação é precisamente isso. Cinema de autor é uma expressão que diz tudo e não devia ser abastardada nem esquecida. Trata-se de dar voz a um autor ou conjunto de autores. Seja qual for a forma de expressão artística, a questão da autoria é cada vez mais central. Vivemos num mundo crescentemente globalizado em que cada vez mais consumimos os mesmos produtos. Por isso, é tão urgente preservar essa visão autoral, seja qual for o formato.
TER – Num mundo globalizado, sugerem-nos as perguntas e oferecem-nos, logo de seguida, as respostas…
Isso é muito fácil de perceber através de dinâmicas económicas e políticas em que há sempre uma tendência para (pausa)…
TER – Uma normalização.
Sim. E uma globalização que potencia a dominância do mais forte, das culturas e dos interesses económicos mais fortes que têm o objetivo de vender produtos a uma escala mundial, esquecendo as questões individuais e patrimoniais, quer estejamos a falar de autores ou de lugares. Li recentemente um artigo sobre séries da Netflix que foram rodadas em lugares aparentemente definidores de uma identidade cultural, mas que eram, afinal, uma mescla de referências arquiteturais europeias com outras que poderiam ser asiáticas ou dos EUA. Há, pois, uma tendência para criar um universo espacial global que possa, depois, ser vendido em qualquer lado. Essa ausência de diferença é assustadora. Trata-se do oposto do cinema de animação de autor, da noção de arte em que me revejo.
TER – E há, claramente, uma ideologia de poder por trás dessa tendência.
Sempre. Claramente.
TER – O José Saramago tem uma frase de que gosto muito em que diz que as respostas estão todas adormecidas à espera das perguntas que as despertem. É exatamente o contrário dessa tendência de que fala.
A ideia passa por transformar-nos em consumidores, por nos fazer perder sentido crítico. E isso não pode deixar de acender em nós uma obrigação de engajamento cultural que desmistifique essa realidade.
TER – É um exercício de resistência.
De resistência contra essa normalização de que falávamos. Mas não é fácil. Basta verificar como todos os jovens têm um acesso fácil, por exemplo usando o telemóvel, a produtos que vêm do outro lado do mundo. Evidentemente, é mais fácil consumir o que não nos questiona, o que não desperta as perguntas que há pouco referiu. Daí a importância de nos reposicionarmos num lugar de questionamento, perguntar de onde as coisas vêm.
TER – Há uma perda de sentido crítico, uma desvalorização do conhecimento. Um indivíduo que dê duas cambalhotas no tiktok é alvo de mais atenção do que aquele que produz uma análise profunda sobre um determinado assunto. Acredito que pagaremos isto muito caro.
Já estamos a pagar. A grande batalha cultural que estamos a viver passa por não limitarmos a nossa vida a um papel de consumidores passivos. Por isso, a educação não passa por ensinar a fazer… Na minha área há uma certa facilidade de produção…. Ora, o que ganho em tempo de produção, perco em tempo de reflexão. É fundamental que, enquanto educadores, saibamos alertar para esta dissociação entre a produção e a capacidade de pensar que é crucial nas áreas criativas. É necessário perceber porque queremos produzir um determinado conteúdo. Converso muito a este respeito com os meus alunos.
TER – Debrucemo-nos, agora, um pouco sobre o cinema de animação português. Nos seus primórdios, surge muito marcado pela sua aplicação à publicidade, muitas vezes humorística. E um dos primeiros filmes, “O pesadelo de António Maria”, é uma comédia. Há uma ligação estreita entre cinema de animação e humor?
Esse filme, o mais antigo de que há registo e provavelmente o primeiro, sendo uma comédia não deixa de ser eminentemente político, o que me parece ser do maior interesse. Tem, já, uma palavra a dizer.
TER – Já é de autor.
Tinha, desde logo, uma visão para o mundo que é aquilo de que temos vindo a falar. Há a questão da autoria que se fecha sobre si, mas, para mim, é importante que se lance um olhar sobre o mundo e este filme já o faz. Nesse âmbito, é diferente daqueles filmes que viriam a tornar-se representativos do cinema de animação português com uma componente mais ligada à publicidade. São obras em que o humor está presente, mas sem o engajamento político que esse primeiro filme teve. De qualquer forma, antes dos anos 80 do século passado não havia condições orçamentais e técnicas para que se fizesse cinema de animação de autor em Portugal. Só a partir dessa altura começa a vigorar uma lógica de série ou de episódios cujos autores – que trabalhavam na publicidade – vão buscar à raiz cultural portuguesa os seus contos, a sua matriz. Passa-se rapidamente de uma lógica sustentada pela publicidade para uma visão mais autoral.
TER – Para que essa tendência frutifique, considera importante o papel de estúdios como Movicine ou Topefilme e, sobretudo, de festivais como o Cinanima que surge em 1977?
É evidente. A História prova-o. E, a este respeito, não posso deixar de salientar a contribuição fulcral de um festival como o Cinanima. Até porque vai dar a conhecer toda a cinematografia que, até então, só nos chegava através dos programas televisivos dessa grande referência, desse mestre que foi Vasco Granja.
TER – Dava a conhecer aquele cinema de animação extraordinário dos países de leste.
Tinha uma lógica quase de educação. Foi por esses filmes que percebi como a animação tinha esse potencial de dar corpo a algo mais que o real. O Vasco Granja e o Cinanima têm, a esse respeito, um papel incontornável.
TER – Os anos 90 são marcados pelo reconhecimento internacional do cinema de animação português. Abi Feijó, não apenas enquanto autor de filmes importantes, mas também pela ação do Filmógrafo, criado em 1983, de que saem figuras como Zepe, José Miguel Ribeiro, Regina Pessoa e o próprio Pedro Serrazina, será, também, uma referência…
É absolutamente referencial. Logo a partir da segunda metade dos anos 80, começa o seu trabalho individual, digamos assim. Potenciado, não posso deixar de o destacar, pelas oportunidades que o Cinanima abriu. Por outro lado, a partir do momento em que passa a haver financiamento criam-se condições para a existência de estruturas maiores que aquelas que existiam. O Filmógrafo passa a disponibilizar um local onde é possível realizar filmes especificamente de autor. Quando me junto ao Filmógrafo, há como que uma sensação de maravilhamento. Não julgávamos possível, no contexto português, fazer aquele trabalho.
TER – É uma porta que se abre.
Completamente. E é a partir daí que ganha dimensão uma visão autoral. “Os salteadores” [Nota da redação – filme de Abi Feijó, de 1993] que ganha uma dinâmica enorme e é um marco histórico do cinema de animação português, dá o pontapé de saída para toda uma geração de cineastas que assumem a animação como projeto de autor, uma forma de expressão enquanto indivíduos. O Abi Feijó e o Filmógrafo são, pois, incontornáveis. Cria-se a oportunidade para uma visão autoral e não comercial.
TER – O Pedro é disso um bom exemplo. “Estória do gato e da lua” é profundamente autoral. Há, no filme, referências autobiográficas?
É um filme que ganhou vida própria. Surge num momento muito específico da minha vida em que, tendo passado cinco anos a estudar arquitetura, percebi que o meu futuro não passava por ali, não era ali que encontrava felicidade. O filme é fruto de uma pessoa que se encontra numa fase de transição e a caminho de se encontrar consigo mesmo. É um filme de alguém que se descobre. Acho que traduz essa ansiedade, essa busca. O que ali vemos é, também, o resultado de uma série de anos em que fiz banda desenhada que ia oferecendo à família, aos amigos, às namoradas…O processo de produção demorou dois anos, portanto não ilustra apenas um momento, mas é o resultado de uma série de momentos. Estão ali espelhados os meus anseios, a minha vontade, as minhas frustrações.
TER – Quando vi o filme pela primeira vez, lembrei-me da história de “O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá”, do Jorge Amado, e também do poema “O gato e a lua”, do Yeats. O seu filme é como um poema. Há uma carga metafórica muito grande, cada imagem parece remeter para muito mais do que aquilo que representa.
É um elogio. Só tenho de agradecer quando as pessoas ali encontram poesia. Há, na realidade, a intenção de fazer um poema visual. Para o ano, faz 30 anos. Ainda bem que toca tanta gente. Recebi mensagens nas redes sociais de pessoas que tatuaram imagens do filme no seu próprio corpo. É um poema, uma estória de cumplicidade.
TER – “Os olhos do farol” também resulta como um poema.
É incontornável ver como as pessoas reagem. Ainda agora estive nos Açores a mostrar esse filme no Farol dos Capelinhos. E é tocante ver a reação das pessoas, não só as crianças, também adultos. Esse lado emocional voltou a vir ao de cima. Fico sempre muito feliz. O nosso objetivo é sempre comunicar algo. Toca-me muito, sinto-me privilegiado quando as pessoas se reveem nas obras que crio.
TER – Há um hiato de 15 anos entre os dois filmes. Quer um quer outro me parecem, de formas diferentes, retratos de uma solidão e de uma obsessão. A do gato pela lua; a da filha do faroleiro pelo mar com quem faz amizade.
(risos) Há obviamente partes que se tocam. Olho para ambos e sinto haver temas que se cruzam. Pode dizer-se que há temas recorrentes na minha obra, apesar de fazer coisas muito diferentes. Acho, também, que são obras sobre um diálogo. O gato e a lua, a rapariga e o mar… São dualidades, mundos que se cruzam e procuram um equilíbrio. Isto apesar de os filmes terem componente visuais diferentes, o que muito me agrada. Para mim, o cinema de animação é uma forma de expressão autoral e, muito mais do que explorar até à exaustão uma determinada técnica ou uma determinada estética, assenta na capacidade cultural de me reinventar, de procurar coisas novas.
TER – Concorda comigo se disser que a falta de público, de uma divulgação mais efetiva e de uma indústria estável são, apesar do grande sucesso internacional, os principais problemas do cinema de animação português?
Antes de mais, é preciso dizer que o cinema de animação português está numa época dourada. Vamos com quase 30 anos de uma evolução exponencial notável. Mas é preciso compreender que esse sucesso é fruto de uma criação autoral e os filmes que nos dão reconhecimento internacional são filmes de autor. O que dá notoriedade a esses filmes é o facto de serem curtas-metragens e de serem expressão de autores e autoras que tinham histórias para contar e culturalmente muito específicas.
TER – Uma especificidade portuguesa?
São filmes com uma voz muito própria e como expressão de paisagens culturais e sociais que estão a desaparecer em Portugal. Refletem uma forma de ver o mundo. Há neles algo de eminentemente português e, ao mesmo tempo, têm um impacto internacional que é fantástico.
TER – Há uma ideia muito cara ao Miguel Torga, a de que o universal é local sem fronteiras. Aquilo que é mais profundo em cada um de nós – o amor, o ódio, a esperança, a beleza, o desalento… – é partilhado por todos os homens. Quanto mais fortemente identitária for uma cultura, será mais partilhável.
É isso mesmo. Os filmes de animação portugueses tocam uma série de temas universais, mas de um ponto de vista autoral e cultural identificável. E é preciso não perder isso de vista. Nada tenho contra a existência de uma indústria que permita manter equipas estáveis e possibilite que as pessoas exerçam a sua profissão, mas é vital que as tutelas continuem a apoiar o cinema de animação de autor, as curtas-metragens, um cinema que vai à procura de linguagens novas, de soluções novas, que arrisca. É fulcral manter essa especificidade, manter essa identidade autoral, apoiá-la. E esta não é uma visão “pequena” do cinema de animação português, pelo contrário, mas uma visão que reclama a preservação de uma identidade cultural e o seu espaço.
Entrevista conduzida por Arnaldo Varela de Sousa





