A artificialidade da inteligência

Henrique Monteiro

jornalista/comentador na SIC Notícias e Rádio Renascença/ex-diretor do Semanário Expresso

In Revista TER 53

A pessoa, normalmente, apontada como um exemplo de inteligência (inteligência natural, já se vê) é o físico Albert Einstein. Porém, perante um desenvolvimento notável na sua área, ele, após debruçar-se sobre as conclusões, respondeu (vai a frase toda para não nos ficarmos pelos habituais soundbites): “A mecânica quântica vale a pena ser estudada. Mas uma voz interior diz-me que ainda não está no caminho certo. Apesar de explicar muito, dificilmente nos desvenda os segredos do Velho. De qualquer modo, estou convencido que Ele não joga aos dados”.

A frase que ficou enlatada no slogan ‘Deus não joga aos dados’, diz bastante mais do que isso. Einstein queria dizer que a aleatoriedade não pode ser a essência das coisas; ora isso contraria a ideia base da quântica, segundo a qual as partículas se comportam como ondas de probabilidade; portanto, não é possível prever com 100% de certeza o seu comportamento. Einstein, que muitas vezes é evocado como o pai da relatividade e do relativismo, tinha postulado a maior constante não relativa do Universo: a velocidade da Luz, que na sua famosa fórmula (e=mc2) é representada por C e é constante face à energia (e) e à massa (m).

Porém, em 2015, uma equipa da Universidade Técnica de Delft, Holanda, anunciou que tinha conseguido provar, de forma decisiva, a hipótese de Max Planck e outros fundadores da mecânica quântica. Por exemplo, que observar uma partícula pode instantaneamente mudar o estado de outra partícula, mesmo que situada a grande distância da primeira.

Bem, isto é complicado, mesmo para quem leu vários livros sobre o assunto, sendo quase incompreensível para quem nunca abordou estes temas. Mas o problema que aqui me interessa, é este: Einstein seria inteligente? Sem dúvida! E como falhou a compreensão da quântica? Mistério! 

Posso tentar uma explicação, embora recheado de dúvidas. Essa explicação é a convicção. Há um filósofo português que se dedicou bastante ao conceito, Fernando Gil (1937-2006) e o seu livro de 2003 chamado ‘A Convicção’ (Campo das Letras) pode ajudar a compreender o que será a convicção. Como outros textos podem ajudar o entendimento do que significa esta palavra.

E já agora, o que significa – recordemos Einstein – a inteligência.

Ao transportar esta discussão para o conceito de inteligência artificial, surge-nos um panorama ainda mais complexo. A inteligência artificial (IA) tenta mimetizar a capacidade humana de pensar, aprender e resolver problemas; mas será que está no caminho certo? Tal como Einstein tinha dúvidas sobre a mecânica quântica, muitos questionam se a IA pode realmente alcançar um nível de inteligência comparável ao humano.

A IA baseia-se em algoritmos e grandes quantidades de dados para tomar decisões. Embora possa realizar tarefas específicas com precisão e rapidez, falta-lhe a intuição e a originalidade que caracterizam a inteligência humana. É uma inteligência derivada e programada, não uma convicção intrínseca.

A capacidade de sentir, entender contextos sociais complexos e criar a partir do nada, são atributos que, até agora, permanecem exclusivos dos seres humanos.

Neste sentido, ao explorar o conceito de inteligência, tanto natural quanto artificial, confrontamo-nos com as limitações e potencialidades de ambos os tipos. Einstein, com a sua genialidade incontestável, demonstrou que até as mentes mais brilhantes podem ter dificuldades em aceitar novas teorias que desafiam as suas convicções. Da mesma forma, a IA, por mais avançada que seja, ainda está a anos-luz de alcançar a profundidade e a complexidade da mente humana.

Portanto, ao falarmos de inteligência, estamos a explorar um terreno vasto e multifacetado. É um conceito que abrange não apenas o raciocínio lógico e a resolução de problemas, mas também a intuição, a criatividade, e a capacidade de compreender e sentir o mundo de uma maneira única e profundamente humana.

Partindo daqui, vou até ao filósofo (e professor catedrático de ontologia na Universidade de Turim, entre outras, Maurizio Ferraris). O filósofo italiano apresentou uma ideia muito impressiva. Mostrando num power point uma motosserra ao lado de uma árvore, disse de modo simples: aquela motosserra é capaz de cortar aquela árvore. Mas terá alguma intenção ou desejo de o fazer? Todos sabemos a resposta: a pobre motosserra não quer cortar a árvore, a menos que um homem pegue nela, a ligue, e a faça cortar. Nesse sentido não achamos que ela tem qualquer inteligência especial. Por que razão, quando chegamos à informática e à cibernética, consideramos ‘inteligência’ o que as máquinas fazem?

Repare-se que a motosserra é muito mais eficaz (inteligente, se quiserem), a cortar troncos do que qualquer homem; mesmo mais do que dois homens. Mas, como já tínhamos a palavra serra, apenas lhe chamámos motosserra. Já para o braço de uma poltrona, pernas de uma mesa, ou cabeça de um prego não temos nada senão o que se chama na filosofia e na gramática uma catacrese – uma “figura de retórica que consiste na designação de algo que carece de significante linguístico específico, por meio de uma palavra empregue não no seu sentido próprio, mas analógico ou figurado”. Esta definição de um dicionário popular (Porto Editora) pode explicar porque se chama inteligência a determinados cálculos e conclusões de um computador, para o qual não temos palavras próprias.

Os organismos humanos têm recursos próprios que nenhuma máquina tem. Desde logo, o maior dos seus órgãos, a pele. Esta ajuda-nos na compreensão do que nos rodeia; talvez na intuição do que devemos fazer. A pele, que nas suas extremidades corporais configura o tato, juntamente com os outros quatro sentidos – olfato, paladar, visão e audição – que não se vislumbram numa máquina, ajudam-nos a ser inteligentes. Por vezes, mostra essa mesma qualidade, caso os sentidos se manifestem em tristeza, surpresa, alegria, euforia e muitos etc.

Leibniz dizia que o homem, o seu corpo, era a máquina mais apurada da criação; nós hoje sentimos que o nosso corpo é limitado. É natural, não fazemos inúmeras coisas que corpos de outros animais conseguem – desde voar a aguentar horas debaixo de água, ou mudar de cor, consoante o que nos rodeia. Porém, lá está, começamos a compreender esses mecanismos e nem aos golfinhos concordamos em dar esse dom da inteligência que a nós próprios atribuímos. Estamos, no entanto, dispostos, a concedê-lo a um computador, que por definição é estúpido, medindo mal – e por si próprio – as consequências do que faz.

Há ainda outra questão levantada por Ferraris que tem muito interesse: a máquina, seja qual for, do Hal do ‘2001 Odisseia no Espaço’ (um filme de Kubrik, de 1968), à motosserra, tem botões ‘on’ e ‘off’. Curiosamente, o único homem que depois do ‘off’ voltou ao estado ‘on’ terá sido Cristo, o que, aliás, não é aceite pela ciência, por si só, isto é, se com ela não trouxer a fé.

Mas admitamos que no futuro as máquinas conseguirão repousar e acordar – algo entre o ‘on’ e o ‘off’, que representa o nosso sono, ou descanso. Imaginemos que elas têm intenções, que deixadas ao pé de uma árvore que precisasse de poda, elas o compreenderiam e começariam a tarefa. O certo é que, ainda assim, teríamos de distinguir entre duas categorias: essas capacidades teriam sido programadas, ou existiriam, em si, por desenvolvimento autónomo da própria máquina.

A primeira hipótese colocaria a ‘inteligência’ como algo dependente do criador. É uma espécie de deificação do homem que atuaria com a máquina como Deus, para os mais ortodoxos, com os Homens. Na segunda hipótese, haveria, de facto uma ferramenta – a inteligência – autónoma da vontade do programador. Neste caso, a independência da inteligência artificial era completa e poderia substituir o homem. No anterior, o mais provável, seria um grupo de homens utilizar a máquina para fazer mal a outrem; algo que conhecemos desde o tempo do coup de poing ou do machadinho neolítico.

Enfim, um dos analistas que mais admiro nestas áreas, o prof. Arlindo Oliveira, escreveu no ‘Público’, que o risco da desinformação, temido pelos avanços da chamada Inteligência Artificial, será muito menor do que o previsto. E cito: “Todas as tecnologias inventadas, incluindo jornais, telefones, rádios, televisão, TV por cabo, telefones móveis e Internet, têm vindo a ser usadas de forma intensa para propagar desinformação, de forma teoricamente cada vez mais eficaz. Cada sucessiva tecnologia permite personalizar de forma mais precisa a informação que é apresentada, aumentando assim, em princípio, a eficácia e, por consequência, os riscos das campanhas de desinformação. A inteligência artificial é apenas a mais recente dessa longa sequência de tecnologias”. E, acrescenta o professor do IST (seu ex-diretor) e presidente do INESC que na base da resistência a quaisquer dados novos e à prevalência, que vem de sempre, de mitos, enganos e notícias falsas, está a convicção. “(…) o nosso posicionamento sobre questões religiosas, políticas, económicas e sociais, e não existem factos, por mais convincentes ou determinantes que sejam, que nos façam mudar de opinião”.

E assim me parece, também, que todo o alarido que se vai fazendo sobre a IA nada mais é do que o alarido costumeiro sobre tecnologias novas ou diferentes. A inteligência e a convicção são dos aspetos menos estudados ou compreendidos do nosso ser. O cérebro humano é uma máquina bem mais complexa do que um computador, por melhor que ele seja. Nós podemos ensinar o computador a mostrar sinais de desgosto, ira, ódio, compaixão. Mas isso significa que ele está desgostoso, irado ou compungido? Duvida-se muito. A relação entre o ser em si e o ser para si é extraordinariamente complexa, e está longe de poder ser vivida (não copiada) por um conjunto de algoritmos.

Como sempre, as máquinas executam o que nós lhes ’pedimos’; e quanto mais semelhantes a comportamentos humanos, mais destrutivas podem ser. Mas isso é o que acontece ao longo da nossa História: tudo pode ser usado para o bem e para o mal; basta lembrar o controlo das radiações ou a energia atómica. Só o que propiciou na medicina e noutros campos da ciência faz do que chamamos IA um avanço inacreditável.

Mas o homem não está ameaçado pelas suas criaturas, embora algumas possam ser criadas com o fito de liquidar outros homens, seus inimigos. Esta é, infelizmente, uma boa parte da sua História. O mito que Mary Shelley criou com Frankenstein, tem o seu quê de verdadeiro: há criaturas que nos escapam ao controlo… porém isso só acontece com más utilizações e nunca por vontade da criatura.

A histeria criada pela inteligência artificial é mais um mito. Em breve rir-nos-emos dele, como agora olhamos os que tinham medo do comboio, do avião ou do computador. A história humana é repleta de episódios em que o novo e o desconhecido geram receios infundados. O comboio, quando surgiu, foi acusado de ser uma força maléfica que alteraria os ritmos naturais da vida e traria desastres. O avião era visto como uma máquina que desafiava as leis da natureza, e o computador, com o seu advento, foi temido como o precursor do desemprego em massa, e da desumanização.

Esses medos, presentes em momentos de grande inovação, revelam mais sobre a nossa resistência à mudança, do que sobre as tecnologias em si. A inteligência artificial, assim como as tecnologias anteriores, enfrentará ceticismo e resistência, mas também será integrada e transformará a sociedade de maneiras que ainda mal podemos imaginar. As previsões sombrias sobre a IA assumem muitas vezes uma perspetiva apocalíptica, ignorando os vastos benefícios e avanços que ela pode proporcionar.

A IA tem o potencial de revolucionar áreas como a medicina, a agricultura, a logística e muitas outras, trazendo eficiência, precisão, e novas possibilidades de progresso. Assim como o comboio acelerou o transporte de pessoas e mercadorias, e o avião tornou o mundo mais acessível, a inteligência artificial pode ajudar-nos a resolver problemas complexos e melhorar a qualidade de vida global.

O desafio está em regular e orientar o seu desenvolvimento de forma ética e responsável, garantindo que os seus benefícios sejam amplamente distribuídos e que os riscos sejam minimizados.

Portanto, ao olhar para a inteligência artificial, devemos lembrar que a inovação é uma constante da vida e que, com o tempo, as suas potencialidades superarão os medos iniciais. A história ensina-nos que a verdadeira inteligência reside na capacidade de adaptação e na abertura ao novo, sem perder de vista aqueles valores e sentimentos que nos definem como seres humanos.