Viver Fora: Descobre quem ainda não foste

Bárbara e Nuno Lopes

criadores de conteúdo

In Revista TER 55

Num mundo em que o digital domina cada vez mais as nossas relações pessoais e em que o país ainda não nos consegue oferecer tudo o que ambicionamos, é hora de olhar além.

Como tudo começou…

TER: Como surgiu a vontade de viver experiências internacionais juntos?

Em 2021, eu já tinha feito Erasmus em Itália, estágio em Madrid e vários Erasmus exchange. Sabia que era só questão de tempo até voltar a sair do país. O Nuno vivia em Paris e, quando veio a Portugal, aproximámo-nos. Entre conversas, surgiu a oportunidade de um voluntariado de 9 meses na Croácia.
Durante esse período ajudámos crianças afetadas pela guerra na Ucrânia, apoiámos pessoas com problemas mentais e distribuímos comida. Depois, passámos 3 meses a viajar pela Europa.

TER: E como conseguiram viajar durante 3 meses sem trabalho?

Nunca deixámos de trabalhar. Durante o voluntariado, mantínhamos freelances online de escrita, tradução e edição de vídeo. Durante os 3 meses, combinámos viagens com Workaway, onde ajudámos numa quinta com animais em Itália 5h por dia em troca de alojamento e comida.
Também fizemos alguns Erasmus exchange na Grécia e na Polónia. Com boa gestão, explorámos várias cidades da Europa.

TER: Como organizar viagens acessíveis?

Planeamento é tudo. Usamos ferramentas como o SkyScanner para procurar voos low cost e depois com base nos resultados, vamos diretamente aos sites das companhias aéreas. Em termos de programas curtos usamos plataformas como o Workaway e para experiências mais longas o Erasmus Exchange. Também reservamos sempre com antecedência e optamos por alojamentos locais em vez de hotéis caros.

TER: Quais destinos recomendam para quem quer começar a viajar barato?

Começa por destinos na Europa mais acessíveis, como a Polónia, Grécia, Lituânia e Itália, cidades onde o custo de vida é mais baixo e que oferecem experiências culturais ricas. Mas se viajar para fora do país, ainda é difícil para ti, podes sempre começar pelo teu país, prepara visitas a zonas como o interior ou o Alentejo e vais ver que vais ficar surpreendido.

Decidir sair e viver fora

TER: Como decidiram que era hora de viver fora de forma definitiva?

Sabíamos que queríamos trabalhar e ganhar experiência profissional para investir em negócios nossos. Depois dos 3 meses a viajar, regressámos a Portugal e começámos a enviar candidaturas para fora. Quando recebi uma proposta para Malta, foi o momento de dar o passo definitivo.
Entre Erasmus, experiências académicas e trabalho no exterior, percebemos que sair não é só mudar de lugar, é mudar de pele.

Quando perceberam que viver e trabalhar fora seria importante?

A vontade surgiu naturalmente, mas o impacto real só veio quando demos o primeiro passo. Viver fora é desafiar rotinas, mergulhar em novas culturas e enfrentar situações inesperadas. O mundo deixa de ser cenário e passa a ser sala de aula.

Sem medo, pois o não é garantido

TER: Tiveram medo antes de ir?

Claro: medo de errar, falhar, não nos adaptarmos ou não sermos “bons o suficiente”. Mas aprendemos cedo: o não é garantido se não tentarmos. O medo não desaparece antes de partirmos, transforma-se depois de enfrentado. Cada dificuldade, como encontrar casa ou comunicar noutra língua, tornou-nos mais confiantes e resilientes.

TER: O que mais vos marcou ao viver fora?

A diferença no dia a dia. Não são apenas as paisagens, é a forma como as pessoas pensam, trabalham e vivem. Foi aí que percebemos algo que hoje repetimos muitas vezes:

“Descobre quem ainda não foste.”

Porque viver fora faz isso, rápido e intenso. Mostra-nos capacidades que estavam adormecidas. Obriga-nos a crescer. Revela-nos.

TER: O que Erasmus, voluntariado e outras experiências internacionais vos ensinaram que nenhuma sala de aula poderia ensinar?

Ensinaram-nos a lidar com o inesperado. A improvisar quando o plano falha e a conhecer-nos melhor em situações inesperadas. Além disso, viajar muda-nos: estamos em constante aprendizagem, como quando vamos de férias. O Erasmus, por exemplo, não é apenas mobilidade académica. É mobilidade interior.

TER: Como estas experiências mudaram a vossa vida pessoal, profissional e amorosa?

Mudaram-nos bastante.  Profissionalmente, desenvolvemos autonomia, visão global e comunicação intercultural, competências que hoje fazem toda a diferença.
Pessoalmente, tornámo-nos mais conscientes e seguros das nossas decisões. Valorizamos o tempo e aproveitamos a vida ao máximo, com uma espécie de bucket list pessoal e profissional.
Viver fora também fortaleceu a nossa relação: aprendemos a apoiar-nos, gerir desafios juntos e perceber que um relacionamento saudável é feito de crescimento individual e partilha de experiências, não de dependência.

TER: Qual a experiência mais engraçada que tiveram?

Foram tantas! Desde voos perdidos que acabaram em viagens de carro, reservas feitas por engano com hosteis de 30 pessoas por casa de banho, até projetos no meio da floresta na Grécia, sendo que eu nunca tinha acampado antes.
Mas a que nunca esquecemos foi numa quinta em Itália via Workaway: tentámos alimentar os animais e o Nuno acabou arranhado por coelhos, calçado por ovelhas e levou um coice de uma égua, tudo no mesmo dia!

TER: Atualmente, o que fazem?

Depois de 1 ano na Croácia e 2 anos em Malta, estamos no nosso segundo ano no Dubai. O Nuno trabalha numa empresa de comunicação ligada ao iGaming, e eu deixei o meu cargo como diretora de marketing para focar-me no digital como criadora de conteúdo do alonewitheachother. Assim, exploramos oportunidades de investimento em negócios próprios e conseguimos conciliar trabalho e lazer.

 

Conselho final

Primeiro, estudem e tirem as formações de que precisam. Aproveitem todas as oportunidades e tornem-se inteiros. Conquistem estabilidade emocional, confiança e aprendam a tomar decisões sozinhos. Lutem pelos vossos sonhos e não tenham medo de mudar de país.

Só depois, quando estiverem bem pessoal e profissionalmente, apaixonem-se e encontrem alguém que não venha preencher vazios, mas sim acrescentar caminho. O mundo não muda quando viajamos, quem muda somos nós. E às vezes é preciso sair para voltar maior.