In Revista TER 55
TER: A tua primeira grande viagem a solo foi um “salto no desconhecido”. Como é que essa experiência moldou a forma como encaras as fronteiras, não só geográficas, mas mentais e emocionais?
A minha primeira grande viagem teve uma influência enorme na pessoa em que me tornei. Não só porque foi uma experiência muito profunda, mas também porque eu era muito nova. Tinha 24 anos e, como tal, eu própria estava ainda a tornar-me adulta, era muito permeável a todo o tipo de experiências. E por isso, esta viagem moldou a minha personalidade de uma forma que me levou alguns anos a perceber. Em termos de mudanças em si, acho que o mundo fez de mim uma pessoa melhor, mais humana e tolerante para com a diferença; tornou-me também numa pessoa que mais capaz de relativizar os problemas mundanos e fez de mim uma ativista da humanidade. Tenho um enorme orgulho no ser humano e não tenho dúvidas de que existem muitas, mas muitas mais pessoas boas no mundo, do que más. Ensinou-me também que o tempo é a coisa mais valiosa que podemos ter. Por isso é muito fácil para mim recusar um trabalho e escolher ganhar menos dinheiro (e eventualmente ter menos coisas, inclusive viajar menos) se isso significar mais tempo livre para fazer aquilo que me dá prazer.
TER: Quando pensas na Patrícia de antes da viagem de 254 dias pelo Sudeste Asiático e na Patrícia de hoje, qual dirias que foi a maior transformação interna? O que descobriste sobre ti que nunca imaginavas?
Acho que fundamentalmente viajar ensinou-me a ser livre. E não falo no sentido lato do termo, da liberdade em termos de atos e ações. Refiro-me ao expoente máximo da liberdade que é a possibilidade de sermos livres de nós próprios – é compreendermos que os nossos pensamentos e as nossas ideias (sobre o mundo e sobre nós) não nos definem, e que por isso não precisamos de viver agarrados a eles. Podemos mudar o que somos e o que pensamos, como quem muda de camisa todos os dias. Há muitas poucas coisas estáticas na vida e o meu espírito não é de todo uma delas.
TER: O movimento e a mobilidade são mais do que deslocações físicas. Para ti, que significado mais profundo tem “estar em movimento”?
“Estar em movimento” é para mim um estado mental, muito mais do que físico. Aquilo que mais me apaixona quando estou a viajar é sentir que estou a ser intelectualmente estimulada durante todo o tempo – estou a aprender coisas novas, a conhecer novas culturas, a testar novos sabores, a caminhar em novas ruas, a observar rostos diferentes. Estou a usar e a amplificar os cinco sentidos a todo o momento. E isto é uma forma de catalisar o próprio ato de viver. E num sentido mais profundo, isto não é nada mais nada menos do que catalisar o próprio ato de viver. Para mim, estar em movimento é uma forma de acelerar a vida.
TER: Viajando tanto e refletindo sobre tantas culturas, como encaras o papel do viajante responsável no contexto atual de mudanças climáticas e turismo de massas?
Essa é uma questão tão pertinente quanto atual e sinto que só recentemente é que despertei para essas questões. Não tenho respostas certas, mas acredito que nos devemos tornar viajantes cada vez mais responsáveis. Mas honestamente não sei de que forma é que podemos conseguir isso sem perder a possibilidade de viajar. Pessoalmente tento compensar a minha pegada com algumas decisões – privilegiar alojamentos locais, consumir em negócios familiares, respeitar as comunidades e culturas que visito. Porém, também acho que isto são os mínimos olímpicos e que são a desculpa ideal para varrer o problema dos nossos ombros e nos desculpabilizarmos de um problema que fomos nós que causamos. Acho que a questão se coloca é até mais profunda – o turismo, se for acessível a todos, não é sustentável. Dada esta conclusão, como é que devemos enfrentar a ameaça?
TER: Houve destinos ou pessoas que te fizeram repensar algum preconceito ou ideia que tinhas antes de chegar lá?
Sim, o Irão é, sem dúvida, o melhor exemplo. Visitei o país em Dezembro de 2022, pouco depois de terem explodido os protestos decorrentes da morte de Mahsa Amini. Queria muito conhecer o país, mas dado o contexto que o país atravessava, tive muito receio de ir e estive quase para desmarcar a viagem. Não o fiz e apesar de, nos primeiros dias, ter sentido medo e receio ao andar nas ruas, rapidamente percebi que estava diante de um povo muito especial. Fiquei completamente apaixonada por aquele país e até hoje esta foi das melhores viagens que fiz. O Irão é um daqueles países em que aquilo que conhecemos, sobretudo a nível político, em nada reflete o seu povo. A disparidade entre o que imaginamos antes de ir e o que encontramos quando lá chegamos é enorme. A experiência super largamente a expectativa e conhecer o Irão é levar uma chapada de humanidade.
TER: No processo de escrever o teu livro “Solo”, houve alguma história que inicialmente achaste que não iria fazer sentido e que, depois de escrita, se tornou essencial?
Não me recordo de nenhuma história específica, mas lembro-me de que, no início, o meu objetivo não era tanto exprimir o lado pessoal da viagem. Mas à medida que o fui escrevendo, fui percebendo que aquilo não poderia ser apenas um relato. Não poderia dissociar aquilo que foi a minha experiência pessoal, especialmente tendo sido uma viagem tão marcante. E foi nesse momento que decidi incluir a meio do texto os recortes do meu diário de viagem, crus, tal e qual como foram escritos, de modo a dar a entender ao leitor que aquela não foi apenas uma viagem, mas sim duas – uma externa, que é factual e relatável, e outra interna, que acontece dentro de nós e que é única para cada um.
TER: Escrever um livro sobre viagens é quase ‘parar para refletir’. Como foi esse processo de voltar a reviver mentalmente cada dia da tua viagem?
Não foi um processo romântico, tampouco agradável. Eu sou uma pessoa muito metódica e organizada e, portanto, escrever não me era algo natural. As palavras não jorraram de mim de forma espontânea nem se combinaram em frases bonitas. O processo de escrever um livro foi extremamente ordenado e um verdadeiro tormento. Cada capítulo e cada história foram devidamente planeadas e esquematizadas. As diferentes partes foram encaixadas para contar uma história que se aproximasse o mais possível da experiência que vivi. Foram 4 meses de um trabalho árduo e solitário, das 9h às 17h, na Biblioteca Municipal de Braga. Apesar de penoso, é algo do qual me orgulho muito. Não necessariamente pela altivez de “ter publicado um livro”, mas sim por ter eternizado uma parte tão importante da minha vida, à qual posso regressar sempre que desejar.
TER: Sentiste alguma pressão, interna ou externa, para que o teu livro “representasse” o estilo de vida nómada na era das redes sociais?
Não, de todo. Até porque eu nunca me achei nómada. Há uma diferença muito grande entre ser nómada e ser viajante e eu descobria-a quando conheci um rapaz que estava a viajar há mais de 10 anos. Ele já tinha vivido numa dúzia de países, tinha casado com uma estrangeira, tinha-se divorciado, enfim, já tinha vivido uma série de experiências capazes de fazer inveja a qualquer viajante. Mas custava-lhe dizer que estava a viajar. A própria palavra fazia-lhe confusão. Porque ele já não se sentia a viajar, aquela já era a vida dele. Ele sim, era um nómada. E foi aí que percebi a diferença entre ambos. Uma viagem, para ser viagem, tem de ver um fim, tem de estar ancorada a um ponto de partida ao qual chamamos casa. E nesse sentido eu nunca fui nómada, sempre tive uma casa para regressar.
TER: Há planos de um novo livro ou projeto editorial que explore e documente esta fase de vida, como mãe e viajante?
Bem, nunca se deve dizer nunca, mas neste momento não está nos meus planos escrever um livro. Apesar de gostar de escrever, não tenho vontade de redigir uma narrativa sobre a minha vida pessoal. Há um certo egocentrismo nisto que não me deixa confortável. O meu livro Solo é, sem dúvida, um livro sobre mim, mas que estava indexado a uma viagem. E a verdade é que eu só sei escrever sobre viagens. Mesmo quando partilho pedaços da minha vida pessoal nas redes sociais, faço-o sempre no contexto das viagens que fazemos. E isto não é nenhuma regra ou obrigação. É algo que me é natural. Em viagem tenho muito para dizer, e gosto até de fazer piadas com coisas inusitadas que nos acontecem. Mas no meu dia a dia, na minha “vida normal”, não consigo sentir esta capacidade, este ímpeto de partilhar. Já pensei algumas vezes sobre isto e a conclusão a que chego é que isto acontece porque o drive que me motiva são as viagens. Por isso, a existir algum livro no futuro, será mais sobre o mundo do que sobre a minha vida.
TER: A chegada do teu filho mudou muito o teu modo de viajar e de escolher destinos? E a produção de conteúdos? Podes partilhar um momento específico em que sentiste essa mudança mais intensamente?
O Francisco não mudou drasticamente o nosso modo de viajar. Era algo que tinha algum receio, confesso, mas não aconteceu, pelo menos não da forma que previa. Temos algum critério nos destinos que escolhemos – deixamos de fora viagens de trekking e países que estejam a atravessar conflitos emergentes – e subimos o nosso nível de exigência em relação à escolha de hotéis, viagens de autocarro noturnas, etc. De resto, acho que conseguimos que o nosso filho se adapte ao nosso estilo de viagem (pelo menos para já). Em relação à produção de conteúdos, senti uma crise muito grande porque não sabia como encontrar o equilíbrio entre um projeto que era originalmente de viagens, mas que ao longo do tempo se tornou num reflexo da minha vida. Os meus amigos diziam-me que “agora vais falar do bebé e tal” e eu respondia prontamente que “jamais me tornaria numa influencer de maternidade”. E não é que eu tenha nada contra este nicho em si, até porque eu própria sigo este tipo de conteúdo, mas simplesmente tinha medo de que a maternidade afogasse o meu projeto de viagens, no qual tinha depositado tanto tempo e esforço nos últimos anos. Tenho a sorte de ser uma apaixonada por aquilo que faço, passei por muitos trabalhos dos quais não gostei antes de chegar aqui, e por isso a possibilidade de perder isto amedrontou-me muito. Não tenho ainda a fórmula secreta para esse equilíbrio, mas acho que hoje estou mais próxima de o encontrar. Continuo a partilhar as minhas viagens e também as minhas dicas e sugestões de maternidade, mas sempre (ou quase sempre) no âmbito das viagens.
TER: Levaste o Kiko ainda bebé para o Japão. Como foi essa experiência logisticamente e emocionalmente? Que desafios enfrentaste e que surpresas encontraste?
Essa é uma pergunta que me fazem muitas vezes e que me deixa sempre “sem jeito”. Nunca sei bem o que responder e, às tantas, sinto-me “obrigada” a inventar uma resposta politicamente correta. Mas vou resistir à tentação e ser o mais honesta possível. O Japão foi uma experiência estupenda. Desafios e surpresas enfrentei imediatamente antes da viagem, durante o pós-parto. Mas não no Japão. E o motivo é muito simples – a nossa viagem ao Japão foi a prova factual que eu precisava para perceber que a maternidade não me ia roubar o prazer de viajar; e que não só poderia continuar a fazê-lo, como passaria a ter o privilégio de o fazer com a pessoa mais importante da minha vida. Lembro-me perfeitamente de estar a passear pelas ruas de Takayama e de sentir uma plenitude e uma satisfação como já não sentia há muito tempo. Por isso, e tentando responder fielmente à pergunta, as maiores dificuldades foram aprender a trocar fraldas em qualquer lado e deixar de jantar em restaurantes porque o nosso bebé precisava de dormir. Mas não sou capaz de considerar isto uma “dificuldade”.
TER: Como equacionas hoje o equilíbrio entre a liberdade de viajar e a necessidade de estabilidade familiar?
Em primeiro lugar tenho de começar por dizer que fiquei muito feliz pela maternidade não me ter roubado a vontade de viajar. Acho que a mulher é muito massacrada com esta ideia durante a gravidez. Fui muito assustada com coisas como “tudo vai mudar”, “já não vais ser a mesma”, “as tuas prioridades vão mudar”. Tinha muito medo de me perder no meu papel de mãe. Por isso foi com muita surpresa que percebi que o meu papel de mãe não anulou a minha identidade. Continuei a ser uma pessoa que gosta de viajar e quero continuar a fazê-lo com o meu filho e sem ele. Em termos do equilíbrio entre viajar versus estabilidade, acho que tenho muita sorte em ser Líder de Viagem, porque permite-me viajar regularmente (a cada 3 meses, mais coisa menos coisa). Apesar de ser em registo de trabalho, estas fugas “alimentam” a minha vontade de viajar. Além disso, tenho uma rede de apoio incrível, que me permite estar ausente durante alguns períodos e saber que “o meu filho está bem entregue”. De resto, tanto eu como o Pedro, viajamos bastante em trabalho, por isso julgo que o nosso filho se vai adaptar a essa realidade.
TER: Quando olhas para a tua página e o teu percurso hoje, qual é a mensagem que mais gostarias que os teus leitores absorvessem sobre mobilidade e viagens?
O meu propósito em termos profissionais (tanto no âmbito do conteúdo que produzo como nas viagens que lidero) é inspirar quem me acompanha a viajar de uma forma mais leve e autêntica; a olhar para o mundo com interesse e curiosidade. Acredito que viajar nos permite compreender que a essência do ser humano é transversal a qualquer tipo de fronteira (seja geográfica ou mental). É isto que procuro semear com o meu trabalho.
TER: Por fim, como definires “lar” agora? É um lugar, um sentimento, ou algo que só existe quando te encontras em movimento?
Regressamos da Colômbia há pouco mais de um mês e tenho um vídeo, que já revi dezenas de vezes, e que neste momento é o que melhor representa a minha definição de “lar”. Foi filmado numa praia de Palomino, já na reta final da viagem e num registo mais descontraído. O Pedro está a dar um iogurte ao nosso filho enquanto ele está no meu colo. Ele está com a boca cheia de iogurte, com a cara cheia de areia, e abraça-me, lambe-me a cara e suja-me com iogurte. E eu estou a rir-me desalmadamente. Rio-me da satisfação, da felicidade que vejo no rosto dele e na plenitude que eu própria estava a sentir num momento tão genuíno e singelo. Lar, agora, é rir-me com a minha família em qualquer lugar do mundo, de preferência longe de casa. É para isso que vivo.





