ENTREVISTA COM:
TER: De onde veio a ideia de largar tudo e começar esta vida a bordo?
Do João. O João fez cursos de vela, tirou as cartas de patrão local, patrão de costa e de patrão de alto mar. Chegou a abrir uma empresa marítimo turística onde teve o seu primeiro barco. A partir daí a ideia começou a surgir e, com a ajuda das redes sociais, a ganhar forma. As redes sociais foram essenciais pois descobrimos N famílias pelo mundo a fazer o mesmo, algumas chegámos a contactar para esclarecer dúvidas. Fomos percebendo os desafios e os benefícios através dessas famílias e começamos a desenhar o nosso projeto.
TER: Podem contar-nos como planeiam as rotas e escolhem os destinos?
É difícil explicar. Cada oceano e cada zona tem a altura certa do ano para se navegar e para se estar. Esta altura certa do ano é consequência da meteorologia. Nós seguimos estas épocas e assim escolhemos os destinos. Exemplo: a época da travessia do oceano Atlântico, entre Cabo Verde e as Caraíbas, começa no final de novembro e termina em fevereiro. A do Oceano pacífico começa em Abril. Então decidimos atravessar o Atlântico logo no início de dezembro para termos tempo de visitar os países que queríamos, mas garantindo sempre que em Abril teríamos de estar no Panamá no lado do oceano pacífico.
TER: Quais foram as partes mais surpreendentes que encontraram em termos de mobilidade global? Há locais onde viajar de barco é mais difícil?
Viajar de barco por si só é surpreendente em termos de mobilidade global. Podemos ir para onde quisermos, só dependemos de nós e da meteorologia. Não há locais onde viajar de barco seja mais difícil. Há locais onde estar de barco é mais difícil. Exemplo: Bonaire, em Bonaire não é permitido fundear, temos de estar em marina ou em poitas. Isto faz parte do programa deles de preservação das águas e da vida marinha. Na Polinésia Francesa, em algumas ilhas também há restrições, como por exemplo em algumas baías não podemos ficar mais de 48 horas.
TER: Quais foram os maiores desafios logísticos de mover uma família inteira pelo mundo neste formato?
O maior desafio foi preparar o barco para uma aventura destas. Este tipo de aventura obriga a que sejamos autossuficientes na produção de energia e de água. Em termos de segurança também foi um desafio preparar o barco para os piores cenários. Em termos de saúde, foi outro desafio, falar com médicos de várias especialidades e definir a farmácia a bordo. Outro desafio foi a educação, garantir que tínhamos os recursos essenciais para podermos dar aulas aos nossos filhos. Outro desafio foi preparar o barco para podermos armazenar mais alimentos. Por fim, foi um desafio escolher roupas, brinquedos, etc para todos e em quantidades que coubessem no pouco espaco de arrumação que temos.
TER: Como equilibram o planeamento de rotas com a liberdade de se deixarem levar pelo vento?
É a meteorologia que manda. Se não quisermos sustos e experiências de navegação menos agradáveis, só navegamos quando a meteorologia permite. Isto às vezes muda os nossos planos. Por vezes temos de ficar mais tempo do que o previsto num local e isso terá como consequência a não visita de outro local mais à frente. Resumindo, os nossos planos e rotas mudam todas as semanas.
TER: Que experiências culturais nos diferentes países/ilhas marcaram mais vocês e os vossos filhos? Alguma situação que mudou a vossa forma de ver o mundo?
Foram tantas e de formas tão diferentes… mais recentemente estivemos numa ilha bastante isolada e com uma população pequena. As mercearias eram poucas e pouco havia nas prateleiras disponíveis para se comprar. Leite, só em pó. Turismo muito reduzido. Nem um cemitério tinha, as campas dos familiares estão nos jardins das casas, mesmo na entrada. Uma ilha com muito pouco, mas as pessoas eram simpáticas e felizes. Felizes com o pouco que têm.
TER: Como partilham e ensinam às crianças sobre as culturas e línguas locais?
Interagindo diretamente com os locais. Indo a museus, quando possível e pesquisando na Internet um pouco sobre a história e cultura dos locais por onde vamos passando.
TER: Viajar de veleiro influencia a forma como veem a relação entre mobilidade e sustentabilidade?
Claramente. O nosso barco permite-nos ir para onde quisermos e durante o tempo que quisermos. Produzimos a nossa electricidade, através dos nossos painéis solares, produzimos a nossa água, através de um dessalinizador que temos a bordo que transforma a água do mar em água potável, e quando a comida fresca acaba, pescamos. Estamos há 294 dias sem entrar numa marina, ou seja, 294 dias a viver com a energia solar e com a produção da nossa água.
TER: Como é a vida no dia-a-dia num espaço tão reduzido? Como lidam com o isolamento no mar?
Não é fácil mas não é assim tão difícil. Felizmente o nosso barco até tem uma dimensão razoável (para um barco). Temos 4 cabines a bordo, permitindo assim cada um dos nossos filhos ter a sua própria cabine. A sala é o local onde eles brincam e estudam mas é um open space juntamente com a cozinha… por vezes não é fácil estar a cozinhar ou a lavar a loiça com eles todos ali ao pé. No exterior é onde os adultos estão mais tempo e é onde tomamos as refeições (numa mesa com sofás onde cabemos todos). Entre o interior e o exterior, conseguimos razoavelmente conviver todos. Durante as travessias, altura em temos o maior isolamento no mar, é muito fácil lidar com este isolamento. Estamos sempre ocupados, seja a verificar a meteorologia e ajustar rotas, seja a ajustar as velas em função do vento, seja a realizar reparações (está sempre tudo a avariar portanto estamos sempre entretidos), seja a dar aulas, seja a ver um filme, etc. É muito fácil nos entreter.
TER: Que desafios técnicos enfrentam diariamente (como energia/água/alarme meteorológico)?
São desafios diários. Todos os dias acompanhamos o estado das nossas baterias e o seu carregamento pelos painéis solares. Em função deste carregamento, em dias de sol é rápido, em dias encobertos é lento, gerimos a electricidade que podemos usar. Exemplo, em dias de sol conseguimos recarregar as baterias bem como telemóveis, computadores, candeeiros, etc. Em dias encobertos, só carregamos o estritamente necessário para podermos chegar à noite e ter bateria suficiente para o consumo nocturno (frigoríficos).
A água também é gerida diariamente. Temos um tanque de 600 litros de água que alimenta as torneiras. Esta água é usada para tudo menos para se beber. Temos vários garrafões e garrafas que enchemos para bebermos. A gestão que fazemos é de manter sempre que há sol tudo cheio, não deixamos que a água acabe e depois enchemos. Sempre que há sol ligamos o dessalinizador para repor níveis. Outro desafio diário que temos é o da âncora. Como estamos sempre fundeados e como o vento varia de direcção e de velocidade muitas vezes durante o dia/noite, acompanhamos também a localização do barco/âncora, pois a âncora pode soltar-se se não tiver bem agarrada ao fundo. Sempre que fundeamos fazemos uma inspeção visual para garantir que a âncora ficou bem presa. Muitas vezes o vento roda e o barco também. Isto implica que a âncora rode também, o que implica nova inspecção visual. Durante a noite a rotação pode acontecer, ou o vento pode soprar muito forte. Ao irmos para a cama ligamos os alarmes de posição, se o barco se afastar mais de X metros do ponto que definimos, os alarmes apitam para podermos actuar e evitar algum acidente.
TER: Quais são as principais diferenças práticas entre viver num barco e viver em terra?
Não temos máquina de lavar roupa, lavamos a roupa à mão. Não temos máquina de lavar loiça, também lavamos a loiça à mão. O facto de termos água limitada altera o nosso dia-a-dia. O lavar a loiça à mão gasta muita água. Na cozinha temos duas torneiras, uma de água doce e outra de água do mar. Lavamos a loiça com água salgada e no fim enxaguamos com água doce. Os miúdos adoram tomar “banho de mar”. Eles, no exterior do barco, mergulham, sobem e ensaboam-se, mergulham novamente e no fim passam por água doce. Por termos electricidade limitada também traz alguma disciplina. Ver televisão é muito restrito. Ir ao supermercado… é sempre uma aventura e demora sempre muito tempo. Temos de pegar no nosso dinghy (bote auxiliar que nos permite ir do barco a terra) e ir até ao local mais próximo do supermercado. Às vezes esse local fica a 30 min de dinghy. Voltar do supermercado é sempre um desafio para não molhar as compras com a água que entra no dinghy por causa das ondas… Temos dois frigoríficos mas o volume total é inferior a um frigorífico normal, o espaço da despensa é reduzido, pelo que implica uma gestão diária do que temos, do que gastamos. Não temos microondas, só forno. Tanto o fogão como o forno funcionam a gás, pelo que a gestão também tem de ser cuidada pois não há gás disponível em todos os sítios que passamos. No entanto, no barco, podemos dar um mergulho na água lindíssima, cheia de corais e peixes coloridos, a 26 graus logo às 08h00, antes do pequeno almoço. As temperaturas do ar são excelentes, máximas de 28 graus e mínimas de 24, está sempre agradável.
TER: Como lidam com a educação dos filhos quando estão constantemente em movimento?
Eles estão em ensino doméstico. A gestão do seu tempo de aulas é feita por nós. Como estamos sempre em movimento, vamos gerindo esse tempo. Quando estamos em travessia e o mar está calmo, tentamos aproveitar ao máximo, quando está agitado não há aulas. Quando estamos parados tentamos dividir o dia, uma parte para aulas e outra parte para explorar o local onde estamos. Não há dias de semana a bordo. Gerimos um dia de cada vez, tentando conciliar ao máximo as aulas com a exploração dos locais.
TER: Tiveram momentos em que sentiram que tinham de “parar” a viagem por motivos práticos (saúde, manutenção, burocracias)?
Até agora não. Tivemos muitos problemas técnicos no barco, que é normal, mas temos conseguido resolver todos. A única situação em que até se tocou no assunto, mas foi logo rejeitado pelo João, foi no nosso regresso da ida a casa. O João foi o primeiro a voltar para preparar o barco e quando chegou muitos dos sistemas vitais do barco não funcionavam. Os motores não funcionavam, o dessalinizador não funcionava, a bomba que leva água dos tanques para as torneiras não funcionava, uma parte do circuito elétrico das tomadas não funcionava. Mas tudo se resolveu e cá estamos todos prontos para continuar viagem.
TER: Quanto custa manter um barco preparado para uma volta ao mundo?
Depende de muitos factores… Nós somos muito conservadores quando navegamos. Preferimos demorar mais tempo e não sujeitar o barco a esforços muito grandes, poupando assim todo o material. Um barco normal em Portugal em marina, que sai uns fins de semana para uns passeios, que no verão vai 2 ou 3 fins de semana a Tróia e faz uma ida ao Algarve nas férias grandes, é capaz de percorrer umas 500 milhas náuticas num ano e fazer menos de 200 horas de motor. Nós num ano percorremos 12000 milhas náuticas e fizémos 1000 horas de motor. Não há milagres, é muito esforço em pouco tempo, o que requer muita manutenção, portanto… não sai barato. Uma forma de reduzir o custo de manter o barco é sermos nós a fazer o máximo de manutenções possíveis (é o que fazemos). Mas temos barcos amigos que já tiveram muitos problemas graves, que implicaram custos avultados de reparação. Se nós tivéssemos tido esses problemas provavelmente teríamos parado a viagem pois não teríamos a capacidade financeira de os resolver. Daí sermos muito conservadores.
TER: Que conselhos dariam a quem sonha em viver neste estilo de vida, mas não sabe por onde começar?
O primeiro conselho é acreditar que é possível. O segundo conselho é começar a fazer algo em concreto para o realizar (jogar no euromilhões não conta). Há muitas formas de tornar um projecto como o nosso possível. Conhecemos N famílias, casais e pessoas sós, que vivem este estilo de vida e todos com formas muito diferentes de o conseguir. Desde pessoas que realmente têm muitos recursos, pessoas que investiram as suas poupanças no barco e trabalham online para conseguir manter este estilo de vida, pessoas que compraram barcos muito velhos (alguns valem o mesmo que um carro de gama baixa novo) e recuperaram ao longo do tempo até conseguirem pô-los a navegar e vivem dos seus serviços de manutenção de barcos nos sítios por onde passam e só avançam quando já conseguiram dinheiro para tal, há de tudo. Mas é preciso muita resiliência…
TER: Quais são as ferramentas ou recursos que consideram imprescindíveis a bordo?
Ui… esta pergunta dava uma entrevista por si só. Vamos tentar resumir. Primeiro elementos de segurança, desde localizadores que enviam a nossa posição e emitem sinal de socorro em caso de algo grave aconteça a balsas salva vidas. Depois os elementos de comunicação, investimos bastante na comunicação. Temos um telefone satélite, temos uma antena de internet da SpaceX (Starlink) que nos permite ter internet banda larga no meio do oceano. Na nossa travessia do Oceano Pacífico tivemos um problema com as baterias e, por termos o Starlink, foi possível realizar uma videochamada com um amigo nosso que estava em Portugal para nos guiar no diagnóstico e na reparação. Isto também é valido para a saúde, apesar de felizmente não ter sido necessário ainda, algum problema de saúde em plena travessia, temos a possibilidade de realizar uma videochamada com um médico para nos guiar no diagnóstico e no tratamento. Por fim, muito material suplente para reparações no barco, desde peças de motor, cabos, etc e as respectivas ferramentas que nos permitam realizar tais reparações.
TER: Como resolvem burocracias de transporte, vistos, registos de barco e licenças nos diferentes países?
Essa parte é a mais fácil. Muitos países até já emitem vistos/licenças online. Os que não permitem fazer online, ao chegarmos dirigimo-nos à capitania e damos entrada do barco e da população. É simples, demora algum tempo, mas é fácil.
TER: Como é que esta experiência redefiniu a vossa noção de “casa” e de mobilidade?
O barco rapidamente se tornou a nossa casa. Foi muito rápida a adaptação dos miúdos e ao fim de pouco tempo já tratavam o barco por “casa”. Por ser o nosso meio de transporte, por termos atravessado situações menos agradáveis, por nos ter levado a sítios lindíssimos, é o nosso porto seguro. Sempre que voltamos ao barco há sempre uma sensação de segurança que nos aquece o coração. A travessia do Oceano Pacífico, entre o Panáma e as Ilhas Marquesas, demorou 36 dias. No dia seguinte à chegada fomos a terra para conhecer e… para pôr os pés em terra firme. Ao fim de 1 hora a explorar a ilha, os miúdos já perguntavam quando voltaríamos para o barco.
TER: O que disseram os vossos amigos/família quando anunciaram esta aventura? Como reagiram?
Os amigos mais próximos ficaram surpreendidos mas de alguma forma não estranharam e apoiaram logo desde o primeiro dia. Os restantes amigos/família, ficaram também surpreendidos e não acreditaram no início. Acharam que era uma ideia e que rapidamente iríamos desistir. Com o tempo, e com o trabalho que íamos fazendo para construir este projecto, começaram a perceber que afinal até era uma possibilidade. Ao verificarem o nosso trabalho e quando perceberam que… o nosso esforço era persistente e não abrandava, perceberam que iria ser uma realidade. Mesmo não acreditando no início, sempre nos incentivaram.
TER: Que histórias de pessoas que encontraram pelo caminho mais vos inspiraram?
Conhecemos muitas histórias diferentes e todas elas nos inspiraram de forma diferente. De uma forma geral, o que nos mais inspirou foi algo que é comum em todas elas, a forma como as pessoas que nos vamos cruzando encaram o dia-a-dia, a vida. A ausência do stress que diariamente temos numa sociedade, a ausência de obrigações diárias que nos ocupam a maior parte do dia ficando muito pouco tempo para nós, a ausência de restrições em tudo e em todo o lado, permite viver um dia de cada vez com a liberdade de podermos mudar a rotina do nosso dia sempre que quisermos. Conhecemos famílias que optaram por este estilo de vida há muitos anos, algumas delas começaram com filhos recém nascidos e hoje, já com 8, 9, 10 anos de idade, são crianças excepcionais, com uma capacidade de realização de actividades claramente acima da média, com uma disciplina invejável, com um conhecimento muito rico e diverso, falam 3 e 4 línguas diferentes, etc é verdadeiramente inspirador. Muitas das crianças que conhecemos nasceram durante a sua viagem.
TER: Onde se imaginam daqui a cinco anos, ainda a velejar ou com novos projetos ligados às viagens?
Temos planos para voltar a velejar, mas só quando os nossos filhos já forem independentes. Até lá, iremos cuidar deles para garantir que tenham sucesso e que sejam felizes.
TER: Que mensagem gostariam de deixar aos nossos leitores sobre viajar e viver com mobilidade sem fronteiras?
O viajar e viver com mobilidade sem fronteiras permite-nos conhecer e viver a verdadeira liberdade. Tem muitos desafios e exige muito de nós mas… é uma experiência única.





