É um dos artistas portugueses mais populares, ícone das festas estudantis, recordista de concertos. Idolatrado por muitos, desvalorizado por outros, o que ninguém pode negar é a evidência de uma longa carreira marcada pelo sucesso e pelos favores do público.
O humor dos seus temas – usando trocadilhos, subentendidos, duplos sentidos – não entroncará, afinal, numa antiquíssima tradição pícara portuguesa?
Foi com grande afabilidade e simplicidade que nos recebeu na sua terra, Vila Praia de Âncora, para uma alongada conversa que lhe esmiuçou a vida e a carreira.
TER EPATV – O seu pai nasceu em São Paulo, no Brasil, filho de emigrantes portugueses, e a sua mãe é natural de Marco de Canaveses. Como veio a sua família parar a Vila Praia de Âncora?
Quim Barreiros – Os meus avós paternos terão saído de Portugal por volta de 1890, eram de uma freguesia aqui próxima, Covas, no concelho de Vila Nova de Cerveira. Foram para o Brasil e, em São Paulo, viriam a nascer quatro filhos, um deles o meu pai. O meu avô faleceu muito novo, com 40 anos, e a minha avó regressou com os filhos.
TER – A sua mãe era de Marco de Canaveses. Como se deu o encontro com o seu pai?
De forma muito simples. O chefe dos Caminhos de Ferro em Vila Praia de Âncora era de Marco de Canaveses. Sendo primo do meu avô materno, chamou-o para vir aqui trabalhar. Ele e a minha avó vieram já com quatro filhos e cá nasceriam mais dois rapazes e uma rapariga.
TER – O Quim vai ter logo desde a infância uma grande ligação à música. O seu pai tinha o conjunto Alegria. No entanto, é com o senhor Lomba, um sargento que era músico, que vai aprender acordeão.
É verdade. Nem sempre os pais têm tempo e paciência para ensinar os filhos.
A minha mãe decidiu que fosse aprender música com o senhor Lomba, um sargento reformado. Teria talvez sete anos…
TER – Foi aprender acordeão…
Sim, já lá andavam outros miúdos. Esse professor era um homem duro, muito severo. Era da velha escola, não se lhe via um sorriso. Usava umas varas fininhas e nós íamos de calções (risos)…. Dava-nos nas pernas para nos acordar.
TER – Mas depois acaba por integrar o conjunto do seu pai. E, curiosamente, nas primeiras aparições públicas não toca acordeão, mas bateria.
Exatamente. O conjunto do meu pai era muito requisitado e aconteceu faltar o baterista. Nessa altura, os conjuntos eram compostos por acordeão, bateria, trompete e saxofone. Tocavam tangos, boleros, valsas, pasodobles…. Teria eu uns nove anos quando o baterista desapareceu. E o meu pai com os bailes de Carnaval à porta…
TER – Teve de avançar o Quim…
Claro. A sugestão foi da minha mãe.
TER– Consta que, por vezes, adormecia durante as atuações e o trompetista tinha de tocar perto de si para o acordar.
É verdade. Lá fiz os bailes de Carnaval que, então, não eram brincadeira nenhuma. Nas coletividades, começavam às nove da noite e prolongavam-se até às quatro da manhã. Eu era uma criança, daí a necessidade de me manterem acordado.
TER – Ao mesmo tempo trabalhava numa loja de fazendas?
Concluí a quarta classe com nove anos. A minha mãe pagou uma multa para eu poder entrar com seis anos. E, quando saí da escola, fui trabalhar para essa loja. Mas, um dia, um dos funcionários bateu-me, vim embora, queixei-me à minha mãe e ela entrou lá como um vendaval. A sorte do funcionário foi ela não o ter encontrado. Era uma mulher com pelo na venta.
TER – É por essa altura que começa ao ir com o seu pai às grandes romarias da região? Ao S. Bartolomeu, na Barca, à Agonia, às Feiras Novas, ao São João de Arga?
Sim, ia com o meu pai. Também ia à Peneda e ao S. Bento de Seixas, nesse tempo uma grande festa.
TER – Esses encontros marcaram-no? Foram uma influência forte para si?
Sem dúvida. Aí comecei a assimilar as características musicais da tradição minhota.
Mas a minha maior influência, o que mais me marcou, foi ter pertencido ao Rancho Folclórico de Santa Marta de Portuzelo.
TER– Também pertenceu ao de Afife.
Sim, mas mais tarde. O Rancho de Santa Marta era uma autêntica instituição do folclore minhoto. Foi uma verdadeira escola. Era dos grupos mais prestigiados e com mais fama a nível nacional. Andei lá muito tempo. Participei em grandes festivais nacionais e internacionais. Com 12 ou 13 anos, integrei uma grande digressão pela Europa. Para mim, toda essa experiência foi fundamental.
TER – Foi no Rancho de Afife que teve contacto com Pedro Homem de Mello?
Não, esse contacto é mais antigo. Com cinco ou seis anos já ia para o Convento de Cabanas, em Afife, onde o poeta vivia. Porquê? Porque o acordeonista do Pedro Homem de Mello era o meu pai. Qualquer festa que lá houvesse, chamava-o. Foi lá que vi, pela primeira vez, a Amália Rodrigues e outras fadistas famosas, como as Taroucas.
TER– Com 20 anos, é chamado para a tropa em Lisboa. Mas livra-se da guerra colonial porque integra a Banda da Força Aérea.
Ainda antes disso houve um acontecimento que me marcou muito.
Fiquei órfão de mãe com 16 anos.
Foi um momento muito difícil (prolongado silêncio). Ajudava o meu pai na garagem, tocava acordeão, mas comecei a sentir a necessidade de estudar. E tive mesmo de o fazer para poder entrar na Força Aérea.
TER – Porquê a Força Aérea?
As fardas fascinavam-me. Mas, para entrar, tinha de ter o 5º dos liceus e só tinha a 4ª classe…
TER– Não chegava.
Pois não. Tive de me preparar. Contei com a ajuda do meu amigo Francisco Sampaio, mais tarde presidente da Região de Turismo do Alto Minho, então chefe dos correios aqui em Âncora, e de umas freirinhas de Lisboa, também aqui instaladas. Deram-me explicações. Fiz o 1º ciclo dos liceus, depois a Secção de Ciências e a Secção de Letras do 5º ano. Só depois concorri à Força Aérea.
TER– E como chega à Banda?
Nunca vi uma banda com um acordeão, que era o instrumento que eu tocava (risos). Consegui uma carta de recomendação para o major responsável através de um homem muito influente que era casado em Âncora. Lá me receberam e perguntaram o que sabia tocar. Respondi que tocava acordeão. Evidentemente, não servia.
Ora o senhor Lomba, além do acordeão, tinha-me ensinado solfejo e Teoria da Música. Foi o que me valeu. Comprei um clarinete e, quando vinha à terra de licença, tinha aulas com um grande músico chamado Cesário Lajido. Fiz um exame e lá entrei para a Banda.
TER– É por essa altura que começa a tocar acordeão nas casas de fado de Lisboa?
Sim. A Banda foi um trampolim muito importante. Tinha as casas de fado ali à mão.
TER– A primeira casa onde toca é o Solar do Minho.
É verdade.
TER – Pelos vistos o grande Alfredo Marceneiro, apesar de gostar de o ouvir tocar, não aprovava os acordeões nas casas de fado…
O dono do Solar do Minho, que era da Póvoa de Lanhoso, ouviu-me tocar e contratou-me. Eu era um bocado como um guerrilheiro que, com um acordeão, levava alegria ao ambiente algo soturno das casas de fado.
TER– Esse circuito vai abrir-lhe muitas portas, não acha? Grava, por exemplo, com a orquestra de Shegundo Galarza.
Claro que me abre muitas portas. Ali se encontrava muita gente, músicos, empresários…
TER– Há uma faceta pouco conhecida da sua carreira, o ter participado num álbum do Zeca Afonso. Como aconteceu?
Tínhamos a mesma etiqueta, a Orpheu, do Arnaldo Trindade. Nós, músicos, convivíamos uns com os outros, almoçávamos, ouvíamos a música uns dos outros. O Zeca fazia maratonas noturnas a gravar nos estúdios de Campolide e, uma noite, quando eu vinha de atuar numa casa de fados, ligou-me o Moreno Pinto, que era o técnico de gravação, a dizer que o Zeca queria falar comigo. Pediu-me, apesar do adiantado da hora, que pegasse no acordeão e fosse lá ter com eles. Deu-me a ouvir os temas em que queria a minha participação, perguntou o que eu podia fazer e aceitou as minhas sugestões. Foi assim.
TER – Numa fase posterior da sua carreira começa a gravar com cantadores ao desafio como o Armando Marinho e o Pereira da Apúlia.
Comecei sozinho a procurar o meu caminho, a ir para a América, Canadá, o circuito da emigração portuguesa, onde sempre fui muito bem acolhido.
Mas sim, comecei a gravar com cantadores ao desafio como o Marinho, o Delfim, o velho Pereira da Apúlia… A grande dupla de cantadores ao desafio foi, durante muito tempo, o Pereira da Apúlia e o Peta, só depois apareceram o Marinho e o Delfim.
TER – Quando começa a fazer o circuito da emigração forma o Super Trio. Depois de o Quim atuar, as cadeiras eram arrumadas e fazia-se um baile, não era?
Antes de ir a solo já tinha ido acompanhando os grandes artistas da época, o Tony de Matos, o Francisco José, o Duo Ouro Negro, o Trio Odemira, com os quais tive uma ligação fortíssima. Percebi que as pessoas também gostavam de dançar e introduzi essa dimensão do baile nos meus espetáculos.
TER – A emigração foi muito importante para si.
Muitíssimo importante!
Estarei sempre agradecido às comunidades portuguesas do Canadá e dos Estados Unidos da América cujo apoio me ajudou a chegar onde estou hoje! Começava em Montreal, passava por Vancouver, vinha à Califórnia, corria toda a costa.
TER – E na Europa?
Também. Além do Brasil, Caraíbas…
TER – Por falar no Brasil, concorda comigo se eu disser que, nos anos 80, se dá uma viragem importante na sua música com a introdução do forró brasileiro?
Não se tratará de uma introdução, mas sim de uma adaptação que resulta do contacto com esse género da música brasileira.
TER – Um dia está com a sua mulher em Copacabana e sugerem-lhe que vá ao nordeste ouvir o forró…
Um português originário de Peredo de Castelhanos, perto de Torre de Moncorvo, disse-me que um irmão, o Luisinho, tinha umas coisas para eu ouvir. Na minha música já estavam presentes os trocadilhos, os subentendidos, os duplos sentidos. Era parecido com o que eu fazia e não nos esqueçamos que fomos nós, os portugueses, que levámos esses ritmos para o Brasil. Basta ir à História. A música brasileira faz a fusão de diversas tradições musicais: portuguesa, eslava, africana…
TER – Mas começa a usar essa influência do forró.
De alguma forma, misturo com o que já fazia.
TER – Desculpe a insistência, mas dessa influência resultarão temas importantes na sua carreira, temas de enorme sucesso, como “A cabritinha”, “A garagem da vizinha”, “Picada de enfermeiro”, “Bacalhau à portuguesa”.
Exatamente. Depois eram os próprios brasileiros que me enviavam material para eu utilizar.
TER – Quando começa a aparecer nas Queimas das Fitas, o Quim começa a chegar a um público mais jovem que muito passa a apreciar a sua música. Porque é que os estudantes gostam tanto de si?
O meu primeiro disco é de 1971, a partir de 1986 passo a ter um grande sucesso, mas as Queimas, depois de 1988, permitem-me chegar, com efeito, a um público mais jovem. Nesse ano, dá-se uma viragem na forma de organizar as festas académicas que, até então, tinham um caráter muito elitista. Tornaram-se mais populares e sei que contribuí para essa mudança.
Então, em 1988, sou convidado pela Academia do Porto e foi o fim do mundo no Palácio de Cristal, um enorme sucesso que foi alastrando a outras Academias por todo o país.
TER– E tem sido assim ao longo dos anos.
Foi uma autêntica explosão, que continua até hoje.
Sei como os estudantes gostam de mim.
TER – Um musicólogo e investigador muito prestigiado, José Alberto Sardinha, escreveu há tempos um artigo no Expresso que coloca o Quim Barreiros nos píncaros: diz que reformula a estrutura musical do malhão, que se inspira nas tradições mais antigas da música portuguesa…. Outros, desvalorizam o que faz, chamam-lhe pimba. Como caracteriza a sua música? Popular? Tradicional?
O Sardinha é um estudioso, um professor doutor, saberá o que diz… (risos)
TER – Posso interrompê-lo? Ele diz uma coisa muito curiosa: “esta gente que hoje desdenha do Quim Barreiros, aprecia a música popular do século XIX, mas, se vivesse nesse século, diria tratar-se de música pimba, só lhe dão valor porque é antiga”.
São termos depreciativos. Arranjam rótulos para desvalorizar aquilo de que o povo gosta. No meu tempo pimba era… (risos). Às vezes, vêm entrevistar-me e perguntam: “Então a sua música pimba?”. Morro de riso. Os rótulos têm variado com o tempo.
Já me chamaram piroso, porta-voz da geração rasca… Essa desvalorização já acontecia com a Simone e a Madalena Iglésias quando eram muito populares. Quem tem muito sucesso é depreciado.
TER – Sucesso é o que não lhe falta.
Sou o artista que mais trabalha. Cheguei a fazer 287 concertos num ano.
E mesmo este ano, com a minha idade, já vou com 167! Mas os artistas considerados extraordinários são aqueles que se calhar não fazem um espetáculo por ano. Parece que o 25 de abril não chegou à comunicação social. As famílias que dominam o meio cultural defendem-se umas às outras. É com alguma mágoa que digo isto.
TER – Num álbum seu de 2007, “Use álcool”, há um tema intitulado “Meu netinho” que é uma nota diferente, mais emotiva, no contexto da sua obra. Sei que tem três netos. Não posso deixar de lhe fazer a pergunta: quem é o Quim Barreiros na intimidade, fora dos palcos? Como é que os seus netos o veem?
Veem como um avô normal. Somos uma família como as outras. Quando eram pequenos e eu aparecia na televisão – é a minha mulher que conta isto! – escondiam-se, fugiam, talvez por acharem que eu estava ali e podiam brincar comigo. Mas quer ouvir a melhor? Há tempos, contei isto a um jornalista e sabe qual foi o título do artigo? “Netos fugiam do avô!”. Não se faz! É extraordinário!
Há um jornalismo terrorista que só procura o escândalo, não respeita as pessoas. Repito, sabe qual foi o título? “Netos fugiam do avô!”.
TER – Leva, então, uma vida normal em família?
Sim, uma vida normal de família.
TER – Fica prometido que, nesta entrevista, não diremos que os seus netos fogem de si (risos).
Entrevista conduzida por Arnaldo Varela de Sousa





