O caminho da Turma da Mônica: da concepção até o leitor

Tatiana Josefovich

editora da Panini

In Revista TER 52

Nunca imaginei trabalhar com livros, muito menos com quadrinhos (banda desenhada para os amigos portugueses). Apesar de sempre ter amado a leitura, os livros para mim eram coisas prontas, que apareciam magicamente no mundo. Nunca havia parado para pensar em qual é o processo de nascimento de um livro. O autor pensar na história e escrevê-la, sim, é algo que todos podemos conceber com facilidade. Mas e depois? Como a ideia escrita em um caderninho à mão (ou no Word, hoje em dia) chega impressa até o leitor, no formato de um livro? Como profissional do mercado editorial há mais de 15 anos, pretendo responder a esta e outras questões no texto a seguir.

Como ia dizendo, nunca me passou pela cabeça a ideia de trabalhar com livros. Foi só no final do colegial, quando tinha que decidir (aos 17 anos, veja bem) o que queria fazer para o resto da vida, que descobri que isso era uma possibilidade. Não tive dúvidas, marquei logo a opção “Editoração” na folha de inscrição da universidade.

Já na faculdade, resolvi, despretensiosamente, cursar uma matéria sobre “Editoração em Histórias em Quadrinhos”. Nunca tinha lido muita coisa em quadrinhos, só conhecia mais ou menos bem a Turma da Mônica, por causa das tirinhas publicadas nos jornais. Afinal, que brasileiro não conhece Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali? Fui sem esperar muita coisa, mais para cumprir o número de créditos necessários para me formar. Qual não foi a minha surpresa quando todo um mundo se revelou para mim…

Foi paixão à primeira vista e para a vida toda. Acabei fazendo minha Tese de Conclusão de Curso sobre Histórias em Quadrinhos, comecei a colecionar gibis e graphic novels sem conta e se tornou um sonho trabalhar com isso.

Em 2013, tive a oportunidade de começar a trabalhar na Editora Panini (editora italiana que detém grande parte do mercado de quadrinhos brasileiro), com os produtos de Mauricio de Sousa, criador da Turma da Mônica. E aqui estou, 11 anos depois, ainda apaixonada pelo ofício.

Fazer parte do processo que leva a Turma da Mônica e seu humor a milhões de crianças é algo mágico. Sempre gostei de rir (minha mãe diz que já aos dois meses eu gargalhava ao ver balançar um molho de chaves), e não tem nada mais bonito do que levar ao riso uma criança.

Nisso, Mauricio de Sousa é, e sempre foi, mestre. Ele, que chegou a ser repórter policial, daqueles com chapéu e sobretudo, não demorou a encontrar seu caminho nas tiras de jornal. Seus personagens Bidu e Franjinha abriram caminho para o Cebolinha, a Mônica e todos os outros. Mônica esta que foi inspirada na filha do autor e que acabou por se apropriar da turma, que se tornou “A Turma da Mônica”.

O humor ingênuo, mas afiado, que serve a crianças de todas as idades (dos 0 aos 100 anos), conquista os brasileiros já na primeira infância. Mauricio achou uma mina de ouro, que é o ciclo sem fim de pais nostálgicos apresentando a Turminha a seus filhos, que assim criarão aquele laço forte que só formamos com o que nos evoca a infância, levando essa nova leva de leitores a trazer a próxima geração, e assim por diante.

A Turma da Mônica está hoje tão entranhada na cultura brasileira, que não há criança, adulto ou idoso que não saiba que a Mônica é dentuça e dá coelhadas a torto e a direito, que o Cebolinha fala errado (quer dizer, “elado”), que a Magali é comilona e que o Cascão não gosta de tomar banho. A maioria das pessoas tem um personagem favorito ou algum com quem se identifica (eu, por exemplo, digo que meu alter ego é a Magali).

Como parte da engrenagem que constrói essa mitologia tipicamente brasileira, meu papel está quase no final de uma cadeia que começa lá atrás, na cabeça de um roteirista.

Hoje em dia, os estúdios da Mauricio de Sousa Produções contam com inúmeros roteiristas, desenhistas, arte-finalistas e coloristas. Basicamente, a produção de uma história se inicia com um roteiro em texto, que depois é desenhado a lápis. Após esse “rascunho”, a arte é finalizada digitalmente com as linhas em preto. Enquanto a cor é adicionada usando o Photoshop, os balões e as letras são inseridos usando o InDesign. É este arquivo, que une imagens coloridas a balões e textos, que é enviado para a editora Panini.

Aí é que chega a “minha” parte. É papel da editora fazer os espelhos das revistas, para decidir em qual posição cada história ficará dentro da publicação. Depois, é hora de diagramar tudo e fechar os arquivos em pdf. Após o vai e volta da revisão de texto e cores (para ver se não escapou alguma coisa sem cor ou com a cor errada), os arquivos vão para a gráfica. A gráfica produz um boneco (ou prova heliográfica, também conhecida como “plotter”), que é conferido e aprovado pela editora. Agora é esperar que a gráfica imprima a tiragem toda, para que a editora possa distribuir as revistas em todo o Brasil.

É esse o caminho que percorre uma história desde a sua concepção até chegar ao leitor final. Vou ficando por aqui, que a Mônica está ali me olhando com o coelhinho a postos! É hora de trabalhar para levar mais quadrinhos ao Brasil e ao mundo! Até breve!

Texto Escrito segundo a ortografia da língua portuguesa em vigor no Brasil