Em Busca da Autenticidade: Liberdade e Identidade

Zeferino Ribeiro

psiquiatra

In Revista TER 51

Quando falamos de identidade pessoal, referimo-nos ao estado do que não é mutável, ou seja, daquilo que subsiste para lá das circunstâncias. A questão que se coloca é: existe mesmo um núcleo substancial em cada um de nós? E, em caso afirmativo, quais são as suas condições de possibilidade?

Quando examinamos um sujeito, podemos identificar-lhe traços de carácter, tendências temperamentais e conhecer as suas crenças, mas isso não equivale a compreender a sua identidade. A identidade é pessoal e intransmissível. Implica sempre a consciência, isto é, a percepção de si mesmo, daquilo que persiste enquanto elemento definidor da nossa personalidade.

Observada do lado de fora, a personalidade pode parecer uma estrutura cristalizada. Todavia, por meio da introspecção, sabemos que a nossa identidade está associada inevitavelmente a momentos de tensão. Esses momentos surgem do conflito entre aquilo que julgamos ser e o que os outros e o mundo esperam de nós no dia-a-dia. Às vezes, também enfrentamos o drama psicanalítico, carregando sentimentos de culpa por transgressões reais e imaginárias. Essa imagem de nós mesmos muitas vezes entra em contradição com os nossos desejos ou acções.

Somos confrontados, a cada instante, com desafios concretos da existência. Sempre que somos obrigados a responder à pergunta “o que devo fazer”, também respondemos, ainda que de forma implícita, à grande questão: quem sou eu? É na acção que nos descobrimos. Portanto, a identidade não está apenas ligada à consciência que temos dela, mas também à consciência de que somos livres e responsáveis pelas nossas decisões.

É óbvio que somos influenciados pelo nosso contexto e por tudo aquilo que o passado fez de nós. Não somos uma tábula rasa. Todavia, a página seguinte está em branco. Podemos escrever o que quisermos. O passado e o mundo em que vivemos podem delimitar o que escrevemos, mas não ditam as palavras. Podemos sempre esconder-nos atrás de ideias feitas, próprias de quem já tem respostas para tudo. Todavia, essa identidade rígida é, em si mesma, um movimento paradoxal de perda de identidade. O que não se transforma definha, por isso, uma identidade forte (tão exaltada) pode ser um problema.

É certo que, vista assim, a identidade pessoal não passa da ilusão de um continuum em que nos esforçamos por ignorar os momentos de ruptura (aliás, como acontece com a própria consciência). Somente numa operação retrospectiva conseguimos descobrir alguma ordem. Contudo, a identidade pessoal é fluída: ela evolui ao longo do tempo, influenciada pelas nossas experiências e pelas nossas escolhas.

Esta coesão pode parecer não passar de uma ficção, como dissemos, mas está ligada intimamente à realidade. Aliás, é a nossa âncora biográfica: sem menosprezar aquilo que fomos, projectamos o que seremos em um periclitante esforço de consistência que nos permite estar sempre agarrados ao mundo, aos outros e ao âmago de nós mesmos.

Num mundo em constante mudança, a identidade impõe-se, uma vez mais de forma quase sub-reptícia, como um modo de autoanálise, um despertar reflexivo. Diria mais: a identidade torna-se uma exigência de coerência diante do desamparo, da trivialidade da espuma dos dias e da carência de certezas.

A coerência vai além da coesão e está intimamente ligada à verdade. No caso da identidade pessoal, a ‘nossa verdade’ está conectada com a liberdade e a vontade — sem esta última, não há acção.   Portanto, devemos desconfiar do sectarismo daqueles que já têm as respostas prontas (negando a liberdade) e do niilismo daqueles que ‘não querem saber’ (desconsiderando a vontade). Em ambos os casos, ocorre uma negação da própria identidade, com alguns refugiando-se em soluções ultrapassadas e outros desresponsabilizando-se.

Concluo pela afirmação de uma identidade pessoal dinâmica que tem, como suas condições de possibilidade, a consciência e a liberdade. A identidade pessoal não é uma condenação à mesmidade; antes, é o exercício actual de responsabilidade do ego. À coerência possível desse eu, frágil e sempre em reconstrução, chamamos autenticidade.

A autenticidade é o fio condutor das nossas experiências, remetendo para uma circularidade primordial: a identidade é, afinal, causa e consequência das nossas escolhas. Por isso, é sempre inacabada e geradora de ansiedade, porque identidade opõe-se ao conformismo, sendo um espaço de criatividade, de amor e espontaneidade.

Nesse caminho tortuoso de sermos autênticos, a identidade é, apenas, um instrumento precioso: uma espécie de pacto de fidelidade — um compromisso com os nossos valores e crenças — e, ao mesmo tempo, o garante de que esse projecto pertence a uma história. Valemos por isso.