O Eurodeputado Francisco Assis visitou Vila Verde como convidado de mais uma iniciativa do Projeto “AQUI HÁ CULTURA!”, dinamizado pela Escola Profissional Amar Terra Verde (EPATV) e Câmara Municipal de Vila Verde. O encontro aconteceu na Biblioteca Professor Machado Vilela, na sexta-feira, 16 de outubro, com o propósito de debater “Os anos 30 do século XX e os anos 20 do século XXI: a História repete-se como tragédia?”. Manuela Barreto Nunes deu início à sessão, que foi conduzida por Arnaldo Varela de Sousa.
Estará a democracia em risco? Poderão os ideais totalitários voltar a tomar as rédeas da política portuguesa, à semelhança do que se tem vindo a assistir em vários países da Europa?
Essa foi a questão central da conferência que trouxe o Eurodeputado Francisco Assis até Vila Verde, numa conversa partilhada com as dezenas de pessoas que encheram o salão nobre da Biblioteca Municipal.
Assis não tem dúvidas: «Em toda a história da humanidade, os partidos não democráticos são em muito maior número do que os democráticos», afirmando que sim, a ameaça do fascismo está bem presente nos dias de hoje, à semelhança do que aconteceu nos anos 30 do século passado.
A ameaça é real, porém falamos de outros tempos. A evolução em todos os setores é por demais evidente e vivemos num novo mundo tecnológico, com progressos diários, que influenciam, também, a nossa maneira de ver e fazer política.
Da democracia ateniense até aos dias que correm, há paralelismos que podem ser feitos. Para Francisco Assis, as democracias que degeneram em situação de balbúrdia promovem o surgimento de tiranos no poder e, consequentemente, na escalada de regimes fascistas. Entre vários outros exemplos, os governos de Hitler ou Mussolini foram citados, bem como o caminho que nos arrastou para duas grandes guerras.
A democracia deve viver de sufrágios, de urnas, debates e escolhas. Porque é tão importante exercer o direito de voto? Assis remata: «Sempre que a abstenção baixa a extrema direita cresce». O discurso nacionalista devolve ao povo a esperança com políticas populistas.
Estatísticas apontam para que a direita extrema chegue ao poder em Espanha, com o VOX. O espectro oposto, a extrema esquerda, «desapareceu», diz Assis, afirmando estar pessimista quanto ao futuro político de nuestros hermanos.
Imigração: problema ou solução?
O tema da imigração também foi debatido na conferência. Poderá a coligação PSD/Chega unir forças para tentar “resolver” aquilo que parece ser uma das preocupações maiores do dia a dia político nacional? «A questão da imigração veio trazer um crescimento notório ao partido Chega e penso que estamos a tratar muito mal este assunto», apontou o convidado, frisando ainda que «é um tema sensível, que tem de ser muito bem pensado. Precisamos de imigrantes que estão no seu direito de querer vir à procura de melhorias de vida. O papel do Estado é regular, não proibir».
Se há quem defenda que a vaga de estrangeiros veio ocupar vários espaços que poderiam ser de portugueses, é inevitável aceitar que a sua chegada foi fundamental para o avanço de setores importantes da nossa economia. Colheitas, pescas, hotelaria, comércio e serviços. «Tem de haver integração e ela tem de respeitar um determinado ritmo», disse Assis.
Habitação – ou falta dela
Com a massa de imigração, levanta-se também um problema habitacional nas maiores cidades do país, Braga incluído. Ora, o problema estrutural também dá força à extrema direita, que encontra nos imigrantes o “inimigo número um” da falta de habitação e escalada do preço dos imóveis. «As pessoas desamparadas procuram respostas e encontram no populismo», atirou Arnaldo Varela de Sousa. Já Patrício Araújo vai mais longe: «A tendência da extrema direita é encontrar um alvo e torna-lo inimigo, quer estejamos a falar de Bruxelas, da comunidade cigana ou dos imigrantes. São o bode expiatório para a falta de habitação e emprego. Mesmo que sejam tomadas medidas hoje, não serão imediatas. A habitação é um problema de difícil resolução e não será colmatado num espaço temporal tão curto».
Se o fascismo vai ganhando força um pouco por todo o mundo, as razões são de variadíssima ordem. Que a extrema direita assusta em Portugal, também já não é de hoje. Francisco Assis refere que essa ala está muito bem organizada no nosso país, sendo, inclusive, apoiada e financiada com ligações internacionais. «O risco é real. Vamos ver o que os próximos tempos nos vão trazer, aqui ao lado em Espanha ou em França».
O excesso de expectativas
Da crise habitacional surge a crise da construção. Uma crise profunda, defende Assis, que é resultado da massificação da escola – esta sim, com números de elevado sucesso. «Os jovens de hoje têm oportunidades que nós não tivemos, mas há excesso de expectativas. Vivemos num mundo ilusório, do “tudo é possível”, quando não é», defendeu.
As pretensões dos jovens são defraudadas e há uma décalage entre competências, o emprego e a remuneração expectável. A frustração desagua em emigração competente e consequente perda de mão de obra qualificada.
Entre as temáticas abordadas, poucas podem ser alvo direto de comparação, quando falamos do século passado para os dias de correm. A ameaça que permanece como um vulto tem um nome: fascismo. A cultura continua a lutar contra ele, todos os dias. A sessão foi encerrada pelo diretor da EPATV, João Luís Nogueira e pelo vereador da Câmara Municipal de Vila Verde, Patrício Araújo.