A Biblioteca Professor Machado Vilela, em Vila Verde, acolheu, a 7 de novembro, a conferência “Palestina: do silêncio à solidariedade” no âmbito do programa AQUI HÁ CULTURA!, promovido pelo Município e pela EPATV.
Luís Nuno Barbosa, presidente da direção da CIVITAS Braga, membro de vários coletivos de defesa dos direitos humanos, personalidade que, em 2024, esteve na Palestina e visitou Jerusalém, a Cisjordânia e os chamados territórios de 48, foi um dos oradores da sessão. Thierry Ferreira, autor da exposição “Gaza é Aqui!”, que resulta da sua experiência pessoal na Cisjordânia, em 2014, foi outro orador.
O encontro começou com a visita à exposição “Gaza é Aqui!”, da autoria de Thierry Ferreira e curadoria Ana Calçada. Manuela Barreto Nunes introduziu aos presentes o contexto e a mensagem da mostra e todos tiveram oportunidade de ver.
Arnaldo Varela de Sousa, moderador da sessão, deu início à conferência, corroborando as palavras de saudação e apresentando cada um dos convidados. Após a sua breve introdução, o debate começou trazendo à mesa diferentes perspetivas sobre o conflito israelo-palestiniano e as suas implicações históricas, sociais e humanas.
Luís Nuno Barbosa foi o primeiro a intervir, abordando o tema do “terrorismo de Israel” e referindo um livro, escrito em 1895, por um autor palestiniano, sobre a perseguição aos judeus. Sublinhou que a perseguição ao povo judeu teve início muito antes da Segunda Guerra Mundial, com episódios de discriminação e violência por toda a Europa. Falou ainda da imigração forçada de judeus para a Palestina, um processo complexo que viria a marcar a história da região. O orador destacou que a existência de um Estado judaico sempre foi um tema controverso dentro da própria tradição judaica, afirmando que, desde o início, certos grupos judaicos se opuseram à criação do Estado de Israel, por considerarem que essa ideia contrariava os princípios da Bíblia judaica.
Referiu-se também ao período de grande incerteza vivido na Palestina, sobretudo no que dizia respeito à compra de terras e à reação árabe face à Declaração Balfour, documento que previa o apoio britânico à criação de um lar nacional judaico. Recordou as sete conferências árabes realizadas para repudiar essa declaração, evidenciando a resistência da região ao projeto sionista.
Luís Nuno Barbosa mencionou ainda o ano de 1948, momento em que diversas milícias armadas israelitas entraram em força para tomar os territórios palestinianos, provocando a chamada Nakba, o êxodo em massa do povo palestiniano e o nascimento do Estado de Israel. Em seguida, destacou a Guerra dos Seis Dias (1967), durante a qual Israel ocupou toda a área compreendida entre o rio e o mar, incluindo a Cisjordânia e Gaza, origem da expressão “do rio até ao mar”. Abordou igualmente a Guerra do Líbano (1982), quando Israel procurou expulsar do país a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), que acabou por se retirar.
Refletiu, também, sobre a importância da empatia e da responsabilidade coletiva, afirmando que a tendência de olhar apenas para os problemas próprios leva a que só se dê atenção aos outros quando as suas dificuldades nos afetam diretamente. Defendeu que era essencial observar o que se passa na Palestina e em Israel e procurar formas concretas de contribuir para a mudança, classificando a situação atual como um caso de segregação racial.
Seguiu-se Thierry Ferreira, que trouxe uma perspetiva mais centrada na responsabilidade individual e na educação. Sublinhou que “nem todos os israelitas são iguais e nem todos os palestinianos são iguais”, apelando à necessidade de avaliar cada situação de forma justa e ponderada. Para o autor, quando os acontecimentos ultrapassam toda a lógica e escapam às explicações históricas, torna-se fundamental olhar para as escolas, para as bibliotecas e para a formação das gerações mais novas, incutindo-lhes valores de humanidade e solidariedade.
Defendeu ainda que a mudança deve começar “por baixo”, na sociedade civil, e não apenas através das elites políticas ou das grandes organizações. Segundo ele, são as pessoas comuns que têm de agir e dar o exemplo, pois “normalmente só dão voz aos políticos, às organizações grandes, aos grandes grupos”, esquecendo que o verdadeiro poder de transformação reside nos cidadãos.
No final houve oportunidade para que os presentes interviessem no debate e pudessem exprimir as suas dúvidas, dar as suas opiniões sobre as temáticas abordadas e ainda acrescentar ideias. Assim, a conferência terminou num tom de reflexão profunda, deixando clara a importância de compreender o passado para agir no presente, e reforçando a ideia de que a paz e a justiça exigem tanto consciência histórica como compromisso humano.
João Luís Nogueira, diretor geral da EPATV, agradeceu a todos pela presença e deu umas palavras sobre a dificuldade de explicar aos alunos o que é a opressão. “Como é que nós podemos dizer aos nossos alunos que o mundo está de pernas para o ar?”, questionou. Seguiu-se Manuel Lopes, vice-presidente da Câmara Municipal, que destacou a importância de realizar sessões como esta e sublinhou a necessidade de nos colocarmos na pele dos outros para combater o egoísmo enraizado na sociedade atual.